Mesmo no final da primavera, o vento junto à Muralha de Adriano atravessa o casaco. À beira das ruínas de uma caserna de pedra, o olhar detém-se numa vala comprida e pouco profunda, a que um guia chama despreocupadamente «a latrina». O resto surge de imediato na imaginação: armaduras a tilintar, lã molhada e dezenas de homens à espera no frio, lado a lado, sobre um canal por onde correm os dejetos.
Há alguns anos, arqueólogos recolheram a lama que se infiltrara naquele local e levaram-na para um laboratório. Ao microscópio, a imagem romantizada do soldado romano limpo e disciplinado começou a desfazer-se.
As descobertas feitas nessas antigas latrinas estão agora a alterar aquilo que julgávamos saber sobre o maior exército do mundo antigo.
As latrinas da Muralha de Adriano revelam um império pouco saudável
Nos painéis brilhantes dos museus, os soldados romanos parecem quase sobre-humanos: músculos de bronze, capacetes reluzentes e fileiras perfeitamente alinhadas. Mas, dentro de um forte da Muralha de Adriano, no norte de Inglaterra, emerge outra realidade, sobretudo quando se descobre o que estava escondido nas latrinas.
Em fortes como Vindolanda e Housesteads, os investigadores retiraram das latrinas amostras de solo repletas de ovos de parasitas, restos de vermes e vestígios de doenças intestinais. Sob o céu agreste da fronteira, as tropas mais resistentes do império viviam em condições que causariam sérios problemas a uma caserna moderna.
Quanto mais os cientistas escavam, mais se desfaz o mito do acampamento romano impecável.
Uma análise das latrinas da Muralha de Adriano revelou que os soldados estavam infestados de tricocéfalos, lombrigas e até ténias do peixe. Não se trata apenas de pormenores repugnantes destinados a chocar: estes achados apontam para um quotidiano marcado pela contaminação. Os homens comiam, dormiam e treinavam antes de entrar, em fila, em longas latrinas comunitárias que claramente não cumpriam a sua função.
Vindolanda é um dos fortes mais bem preservados da muralha. O solo encharcado conservou objetos tão variados como sapatos de couro e fragmentos de tabuletas de escrita. Ao examinar os depósitos da latrina, os especialistas conseguiram acompanhar a evolução dos parasitas ao longo do tempo. Não detetaram apenas um surto isolado, mas sim um problema persistente e sistémico.
Imagine-se num compartimento de pedra apertado, com outros 20 homens, todos a partilharem o mesmo canal de água, as mesmas esponjas e as mesmas doenças.
Como podiam estes soldados estar tão doentes, se a engenharia romana estava alegadamente séculos à frente do seu tempo? A resposta dá uma dura lição sobre a distância entre a tecnologia e os hábitos diários. Os fortes romanos dispunham de esgotos, bancos de pedra e água corrente. No papel, tudo parece um triunfo da higiene antiga.
Na prática, porém, o sistema dependia de uma limpeza constante e cuidadosa, bem como de bons hábitos por parte de centenas de homens cansados e sob pressão. Numa fronteira fustigada pela chuva, à beira do mundo conhecido, nem sempre era isso que acontecia.
Sejamos francos: ninguém segue à risca as melhores práticas de higiene todos os dias, sobretudo numa guarnição sobrelotada e sobrecarregada, com pouca água limpa e um desfile interminável de botas a atravessar lama e estrume.
O lado obscuro da «higiene» romana na fronteira imperial
Quem já viu uma reconstrução de uma latrina romana terá provavelmente reparado no comprido banco de pedra, com aberturas em forma de buraco de fechadura. Por baixo, um canal pouco profundo de água corrente levava os dejetos. Na Muralha de Adriano, os arqueólogos acreditam que os soldados se sentavam lado a lado, com as capas bem apertadas contra o vento, fazendo as suas necessidades em silêncio ou trocando piadas para passar o tempo.
Depois surge o pormenor que costuma deixar as pessoas perplexas: a esponja presa a um pau, ou «tersório», usada em comum. Era um utensílio de limpeza mergulhado em água e passado de homem para homem. Parece uma anedota, até se perceber que os dados sobre os parasitas sustentam essa prática.
De repente, aquela latrina romana «avançada» parece uma fábrica de doenças.
Os investigadores que estudaram as latrinas da Muralha de Adriano não encontraram apenas ovos de vermes. Descobriram indícios de que os soldados consumiam carne e peixe mal cozinhados ou mal conservados, provavelmente armazenados em condições que misturavam dejetos animais e humanos. Em algumas amostras, as ténias do peixe associadas a fontes de água doce sugeriam que até a água supostamente limpa que abastecia as latrinas era suspeita.
Pense-se no dia a dia de um forte como Housesteads: latrinas junto às cozinhas e soldados a calcorrear ruas sujas com sandálias de sola cardada, levando depois para as casernas apinhadas tudo o que lhes ficava agarrado. À noite, os beliches cheios facilitavam a passagem de piolhos, pulgas e infeções cutâneas de homem para homem.
Talvez o campo de batalha não fosse o único lugar onde a saúde de um soldado romano estava sob ameaça.
Os arqueólogos defendem agora que o saneamento romano servia menos para eliminar doenças do que para as afastar da vista. A água corrente das latrinas levava os dejetos para fora do forte, mas apenas até certo ponto. A jusante, comunidades, animais e campos ficavam expostos à mesma mistura poluída com que os soldados conviviam a montante.
Dentro dos fortes, as latrinas eram impressionantes na planta arquitetónica e muito menos eficazes na utilização diária. Não havia sabão, desinfetante nem conhecimento dos micróbios. Havia apenas água fria, utensílios partilhados e a convicção de que alguma engenharia podia vencer a sujidade tal como conquistava territórios.
A verdade simples é que o poderoso exército romano estava longe de derrotar os inimigos invisíveis com a mesma eficácia com que vencia os adversários humanos.
O que estas latrinas imundas revelam sobre poder, mito e sobrevivência quotidiana
Há um pormenor simples da Muralha de Adriano que regressa constantemente: a distância. As latrinas eram muitas vezes construídas perto das zonas de habitação e de trabalho, em vez de ficarem resguardadas e afastadas. Na prática, os soldados não precisavam de caminhar muito durante uma tempestade. Do ponto de vista da saúde, a contaminação ficava sempre a poucos passos.
Ao traçar os sistemas de drenagem, encontra-se uma rede de canais sob ruas e muralhas, por vezes entupidos, por vezes com fugas. Essa rede transportava mais do que dejetos: levava também ovos de parasitas capazes de manter um soldado debilitado e abaixo do peso durante anos.
Uma espada curta romana podia brilhar, mas as entranhas de quem a empunhava estavam muitas vezes em sofrimento.
Todos conhecemos o momento em que imaginamos o passado mais limpo, simples e heroico do que realmente foi. A Muralha de Adriano desfaz essa fantasia. Quanto às silhuetas românticas dos legionários recortadas contra o céu do norte, muitos deles coçavam erupções cutâneas, lutavam contra a diarreia ou arrastavam-se nos treinos com dores crónicas de estômago.
O erro está em presumir que infraestruturas impressionantes significam automaticamente vidas saudáveis. Os visitantes atuais percorrem as ruínas e admiram o trabalho da pedra, a drenagem e o planeamento. Poucos imaginam o cheiro permanente, o zumbido das moscas e a fraqueza persistente causada por parasitas que retiravam lentamente energia aos corpos mais fortes do império.
Esta distância entre a imagem e a realidade não diz respeito apenas a Roma. Diz também respeito à forma como contamos a história de qualquer sistema poderoso.
«O saneamento romano é frequentemente elogiado por estar à frente do seu tempo», observa um investigador que trabalhou na análise de parasitas da Muralha de Adriano. «Mas, quando olhamos para as latrinas, tanto literal como cientificamente, vemos um exército que vivia todos os dias com infeções que os seus próprios sistemas ajudavam a espalhar.»
- Os soldados romanos não eram super-homens imaculados
As suas próprias latrinas mostram que transportavam grandes quantidades de parasitas e sofriam de infeções. - As latrinas «avançadas» não garantiam verdadeira higiene
Esponjas partilhadas, bancos apertados e rotinas de limpeza insuficientes transformavam a tecnologia num risco para a saúde. - A Muralha de Adriano é tanto um aviso como uma maravilha
Recorda-nos que até impérios poderosos podem compreender mal os princípios básicos da saúde quotidiana.
Um exército romano mais sujo e humano do que aquele que o cinema mostra
Perante as ruínas de uma latrina na Muralha de Adriano, é difícil não sentir uma mistura estranha de admiração e desconforto. As pedras estão trabalhadas com beleza e os canais de drenagem são engenhosos. Depois vêm à memória os vermes, a esponja partilhada e os estômagos doentes, e a imagem da legião invencível vacila um pouco.
Essa mudança de perspetiva é valiosa. Afasta-nos das estátuas de mármore e aproxima-nos de pessoas de carne e osso: soldados que tremiam de frio, cheiravam mal e por vezes se perguntavam se o império que os protegia não os estaria a envenenar lentamente, a cada ida à latrina.
Da próxima vez que vir uma cena de batalha de uma grande produção, com fileiras de legionários ordenadas e reluzentes, talvez imagine a realidade oculta: metade daqueles homens com parasitas, muitos a resistir a dores de cabeça, cólicas e fadiga crónica. Não eram fracos, apenas humanos. Viviam num sistema que resolvia alguns problemas com trabalhos de pedra engenhosos e criava outros com seres invisíveis que rastejavam.
Ao espreitar essas antigas latrinas, não ficamos apenas a conhecer a canalização romana. Apanhamos Roma sem armadura, de estômago revolto, a fazer aquilo que todos os seres humanos sempre tiveram de fazer. De repente, esse império distante parece muito mais próximo.
| Ponto principal | Pormenor | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| As latrinas da Muralha de Adriano eram focos de parasitas | As amostras de solo contêm grandes quantidades de ovos de tricocéfalos, lombrigas e ténias | Desfaz o mito dos soldados romanos perfeitamente saudáveis e revela os riscos reais do quotidiano |
| O saneamento romano parecia melhor do que funcionava | Água corrente, bancos de pedra e esgotos continuavam a disseminar doenças sem verdadeiros hábitos de higiene | Deixa um alerta contra a confusão entre tecnologia impressionante e bem-estar efetivo |
| O poder de um império não venceu os inimigos microscópicos | Infeções crónicas, manuseamento inadequado dos alimentos e utensílios de limpeza partilhados prejudicavam a saúde dos soldados | Convida os leitores a repensar as narrativas heroicas e a encarar a história como uma experiência vivida, desordenada e humana |






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário