Já ouviu dizer que a Nova Zelândia é um destino extraordinário para uma viagem de automóvel? É verdade. No final do ano passado, percorri cerca de 5.000 km pelo país ao volante de um Hyundai Santa Fe. Fui visitar assinantes para uma reportagem de revista, mas aproveitei sobretudo para conhecer o melhor que a Nova Zelândia tem para oferecer.
De norte a sul, este é o guia da TG para os 10 melhores locais a visitar por quem gosta de conduzir.
Fotografia: Rowan Horncastle
1: Praia de Muriwai
Antes de mais, um esclarecimento: as empresas de aluguer não vão apreciar que ande a passear na praia com um Corolla alugado. Por isso, não lhes diga. E não fique avariado nem atolado. Sim, estamos a começar bem. Há ainda outra questão: para conduzir em muitas praias neozelandesas é necessária uma autorização especial, que deve trazer consigo juntamente com um documento de identificação com fotografia. Junto às entradas e saídas, o limite é de 30 km/h; nas restantes zonas, é de 60 km/h.
Também há várias regras de bom senso a cumprir: evite a areia fofa, leve um cabo de reboque e uma pá, consulte os horários das marés, não atropele cães nem aves e não se ponha a desafiar as ondas.
Respeitando tudo isto, continua a ser possível divertir-se bastante nas praias daqui. Há pouca gente e quem lá está costuma ter o mesmo objetivo: divertir-se a conduzir sobre uma superfície macia.
Não chegámos à praia de Ninety Mile, em Northland, que na realidade tem «apenas» 90 km de comprimento. Mas, se tiver tempo, é lá que deve ir, pois está oficialmente reconhecida como estrada.
2: Whakapapa
Os cumes do Parque Nacional de Tongariro dominam o centro da Ilha Norte. Nenhuma estrada passa entre eles e apenas duas sobem uma distância considerável pelas encostas do monte Ruapehu, até às estâncias de esqui de Whakapapa e Turoa. Ambas merecem uma visita ao volante, mesmo que, como nos aconteceu no final da primavera, ainda exista o risco de uma queda súbita de neve.
Na base das estradas, a vegetação é exuberante. Depressa dá lugar a encostas mais cobertas de erva, que se tornam rochosas e expostas à medida que se sobe até à estância de esqui de Whakapapa, a 1.630 metros de altitude. O próprio Ruapehu atinge 2.797 metros. Além do esqui, a maioria das pessoas sobe até aqui para caminhar: a travessia alpina de Tongariro é considerada uma das melhores caminhadas de um dia do mundo.
Para quem gosta de conduzir, estas são as melhores estradas da Ilha Norte: abertas, bem traçadas e pavimentadas, com uma excelente combinação de curvas apertadas e largas. Certamente haverá quem me corrija nos comentários: a estrada 5, de Napier a Taupo, a 4, de Whanganui a Tohunga Junction, e a estrada costeira da baía de Plenty, de Opotiki a Gisborne, são todas espetaculares. Mas são também tão longas e sinuosas que podem acabar por cansar. Por estas paragens, não se chega depressa ao destino.
3: Estrada do Deserto
Estamos agora praticamente do outro lado do Ruapehu, onde a chamada Estrada do Deserto, que é na verdade a estrada 1, atravessa as planícies vulcânicas. É sobretudo reta, com algumas descidas para desfiladeiros que ajudam a manter a atenção. Uma forma ainda melhor de o conseguir é aventurar-se pelo caminho de terra que leva à remota estância de esqui de Tukino, muito mais discreta e inacessível do que Whakapapa. O percurso não é demasiado difícil, a paisagem é espetacular, há rios e passagens por água e encontram-se pouquíssimas pessoas. Ao contrário do que acontece na própria estrada 1.
4: Estrada costeira de Kaikoura
Venha pela combinação deslumbrante de mar, montanhas, vegetação e uma infraestrutura rodoviária reluzente e nova, mais do que pela condução em si. Esta é a principal estrada para sul, em direção a Christchurch, através do norte da Ilha Sul, pelo que terá trânsito. Ainda assim, continua a tirar o fôlego, tanto pela paisagem como pela forma engenhosa como as curvas acompanham a costa.
Pare no Nin’s Bin se lhe apetecer lagostim com um preço exorbitante, embora absolutamente delicioso. Grande parte da estrada é nova: foi reconstruída depois de o terramoto de Kaikoura devastar toda a zona em 2016. Como em toda a Nova Zelândia, esteja atento aos limites de velocidade: a polícia é muito… ativa.
5: A estrada para Rodin
Infelizmente, não lhe conseguimos arranjar autorização para conduzir na extraordinária pista de testes da Rodin. Mas nem precisa dela, porque as estradas da região são soberbas. Há muitas variações de altitude e inúmeras curvas, na sua maioria bastante apertadas e sinuosas. Chama-se Inland Road e permite chegar a Christchurch sem ver rigorosamente mais nenhum carro.
Fica, porém, o aviso: no que toca a boas estradas para conduzir no lado oriental da Ilha Sul, é isto. Daqui até à ponta sul da ilha predominam terrenos agrícolas planos e sem grande interesse. Está bem, Akaroa é interessante, mas o trânsito turístico anda devagar. Mesmo M-U-I-T-O devagar.
Por isso, se puder, depois de passar pela Rodin, situada um pouco a sul do monte Lyford, siga para Waiau, atravesse o rio e vire para oeste, subindo a passagem de Lewis. Terá com que se entreter até chegar à costa ocidental, a cerca de 240 km de distância.
6: Lago Pukaki
É esse o seu nome. E, tirando uma ou duas curvas interessantes, vem-se aqui pelas vistas. E pela cor da água. Cardinal sem filtro. A estrada entre os lagos é plana e árida, com quilómetros de vazio à volta. Tenha apenas em conta que os radares da polícia têm maior alcance do que a sua vista.
Abrande e aproveite para admirar a paisagem. Se seguir para sul, passará primeiro por Tekapo, o mais próximo que a Nova Zelândia tem de uma povoação anónima à beira de um lago no Nevada. Pode, e deve, atravessá-la sem pestanejar. Mas espere: acima da localidade há um sítio que merece mesmo uma paragem, o Observatório do Monte John. Mesmo que não seja fã de observar estrelas, vai gostar da estrada que sobe a colina. E a vista do cimo é simplesmente absurda. Saiba apenas que é uma estrada privada e que fecha depois de escurecer. Lá em cima há, contudo, um bom café.
Existem estradas dos dois lados do Pukaki. A principal segue até Aoraki, a montanha mais alta da Nova Zelândia. A da margem oriental transforma-se num caminho de gravilha, mas passa pela central elétrica Tekapo B, de um brutalismo desconcertante, e, se estiver aberta, permite regressar em direção a Tekapo pela estrada do canal. Caminhos de gravilha. Praticamente desertos. Sim. Sem dúvida que sim.
7: Passagem de Lindis
Há quem fale da passagem de Lindis como uma grande estrada para conduzir. Não é. É apenas uma das poucas passagens que conseguem abrir caminho entre as montanhas dos Alpes do Sul, a espinha dorsal da Ilha Sul. Bem mais a norte existem outras duas, as passagens de Lewis e de Arthur, e ambas superam largamente a de Lindis. O traçado flui de forma agradável, mas não há desafio: é tudo bastante seguro e fácil, e a paisagem fica pelo «impressionante», sem nunca chegar ao «naturalmente magnífico».
Uma das principais razões para esta apreciação é saber o que vem a seguir. A sul de Lindis encontram-se algumas das paisagens mais deslumbrantes de toda a Terra. Por isso, siga em frente e deixe esta parte para trás.
8: Queenstown
Não é uma estrada, mas sim uma excelente base para explorar zonas extraordinárias, com cenários de cortar a respiração em cada curva. Algumas estradas não têm saída, pois sobem até estâncias de esqui como Coronet Peak e Double Cone. Isso significa que, na descida, poderá apreciar vistas diferentes. E descobrir o que acontece quando os travões perdem eficácia.
Estas são as paisagens que viu em O Senhor dos Anéis, sobretudo na estrada que acompanha o lago Wakatipu até Glenorchy, onde foram rodadas muitas cenas. Mais uma vez, terá de voltar para trás no final, porque as montanhas impedem qualquer avanço.
A estrada de Crown Range segue para norte até Wanaka, mas, depois da subida principal e de chegar a Cardrona, vale mais virar à esquerda um pouco mais acima, em direção à estância alpina. É uma boa estrada. De gravilha. Voltaremos a isso em breve. Uma curiosidade para os entusiastas de automóveis: do outro lado do vale, em frente à estância, fica a SHPG, a área de testes do hemisfério sul. É aqui que os fabricantes de automóveis vêm fazer ensaios de inverno durante o verão no hemisfério norte. E, como seria de esperar, tudo é ultrassecreto.
De qualquer forma, nesta região, praticamente qualquer estrada vale a pena. Atravesse o desfiladeiro de Kawarau até Cromwell: é deslumbrante. Ao chegar, pare no Parque de Automobilismo de Highlands. A pista é fantástica, mas o mais notável, além das casas de banho, chamadas «Casa de banho com vista» por uma boa razão, é o museu. Tem uma excelente coleção de automóveis.
9: Desfiladeiro de Skippers
Já falei um pouco de estradas de gravilha, mas esta é a maior de todas. A estrada do desfiladeiro de Skippers é apresentada como a mais perigosa da Nova Zelândia. Depois de a percorrer, percebo porquê. À entrada há sinais a avisar para aquilo em que se está prestes a meter. E há uma razão: depois de começar, não pode desistir. Durante vários quilómetros, não há literalmente nenhum lugar para inverter a marcha. Boa sorte se encontrar alguém a vir em sentido contrário.
É possível percorrê-la num compacto familiar. Provavelmente. O problema não são as dificuldades próprias de um percurso todo-o-terreno exigente. É a falta de barreiras de segurança. Por causa das ravinas. Junto ao topo, pouco depois de descer da estrada de Coronet Peak, já parece algo arriscado, mas aquela borda a desfazer-se, amparada por cones de trânsito e esperança, não é nada comparada com o que acontece quando o caminho desce até ao rio Shotover. Engula em seco.
Paredes a pique, precipícios de muitas dezenas de metros e uma passagem estreita aberta na rocha a explosivos. O alívio de ultrapassar este troço depressa desaparece quando nos lembramos de que também é o único caminho de regresso. Construída originalmente para servir os acampamentos de extração de ouro, esta estrada mantém um ambiente selvagem: é daquelas que lhe dão uma palmada nas costas e desejam boa sorte, mas não fazem nada para o proteger.
Já a percorreu e ficou com vontade de mais? Regresse a Cromwell e vá à procura de Duffers Saddle. Outro nome excelente. Outro caminho de terra arriscado que não leva a nenhum sítio em particular.
10: Milford Sound
Milford Sound. Mesmo que o nome não lhe seja familiar, reconhecerá a vista sobre este fiorde deslumbrante. Será certamente a paisagem mais famosa da Nova Zelândia. Chegar aqui, porém, demora: fica a menos de 72 km de Queenstown em linha reta, mas a viagem por estrada é de cerca de 290 km. Vale a pena. Com exceção do troço entre Lowther e Te Anau, um pouco banal quando comparado com as montanhas e os lagos que ficam antes e depois dele.
Para se sentir como um pioneiro do Médio Oeste americano, a melhor parte é a travessia do vale de Eglinton. Para conduzir, o melhor vem a seguir. Daqui, passando pelo lago Gunn, atravessando o túnel de Homer e descendo até Milford Sound, fiz o meu percurso preferido em toda a Nova Zelândia. Longe da civilização, com nuvens baixas, chuva intensa e água a escorrer das montanhas para rios impetuosos. Espetacular. Uma verdadeira aventura ao volante de um SUV familiar comum.
Uma sugestão: faça o percurso de manhã cedo, antes de os autocarros estragarem a vista. E, quando chegar ao fim, não se esqueça de embarcar para conhecer o próprio fiorde. A escala do lugar é assombrosa: há cascatas tão altas como a Torre Eiffel que, perante as montanhas imponentes, parecem meros fios de água a sair de uma torneira de banheira.






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