Quando se pensa nas grandes migrações animais, é habitual imaginar gnus a atravessar em debandada o Serengeti ou aves a cruzar oceanos.
Mas algumas das migrações mais longas e importantes do planeta ocorrem debaixo de água, nos rios. Uma nova e ampla avaliação apoiada pela ONU alerta que estão a entrar rapidamente em colapso.
O relatório, intitulado Avaliação Global dos Peixes Migradores de Água Doce, está a ser apresentado na COP15, no Brasil, pela Convenção sobre a Conservação das Espécies Migradoras (CMS), da ONU.
Trata-se de um forte sinal de alerta para uma crise que tem sido fácil ignorar, precisamente porque se desenrola abaixo da superfície.
Os peixes migradores de água doce enfrentam graves dificuldades e a sua proteção exige que os países tratem os rios como sistemas interligados, em vez de os dividirem em troços nacionais independentes.
Uma importância que vai além da biodiversidade
Os peixes migradores de água doce são muito mais do que uma preocupação restrita de conservação. Contribuem para o funcionamento dos rios, transportam nutrientes e sustentam redes alimentares. São também essenciais para importantes pescarias de águas interiores que alimentam e sustentam centenas de milhões de pessoas.
Muitas destas espécies não são «locais» no sentido em que frequentemente imaginamos os peixes de rio. Os seus ciclos de vida dependem de extensos corredores sem interrupções: percursos entre zonas de desova, áreas de alimentação e planícies inundáveis usadas como viveiros, que podem estender-se por milhares de quilómetros e atravessar várias fronteiras.
Essa dependência é também uma fonte de vulnerabilidade. Quando barragens, alterações dos regimes de caudal, focos de poluição e pressão da sobrepesca fragmentam um rio, os peixes não perdem apenas habitat: deixam de conseguir completar o seu ciclo de vida.
Os números mostram a gravidade da crise
A avaliação reúne vastos conjuntos de dados mundiais e avaliações da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) relativas a quase 15 000 espécies de peixes de água doce.
Um dos números é particularmente alarmante: desde 1970, as populações de peixes migradores de água doce diminuíram cerca de 81% em todo o mundo.
Além disso, o relatório refere que quase todas, ou 97%, das 58 espécies de peixes migradores incluídas nas listas da CMS, tanto de água doce como de água salgada, estão ameaçadas de extinção.
Não se trata de uma situação em que basta «manter a vigilância». É um caso em que «o sistema está a falhar».
Uma enorme lacuna na proteção mundial
Para além das 24 espécies já abrangidas pela proteção da CMS, o relatório identifica 325 espécies de peixes migradores de água doce candidatas a esforços internacionais coordenados de conservação.
A lista não pretende dar uma resposta definitiva sobre cada espécie. Procura antes mostrar a dimensão do problema que está a passar despercebido.
A ação isolada de um país não chega para proteger estes peixes, pois muitos migram através de bacias hidrográficas partilhadas.
De pouco serve proteger o habitat a montante se uma barragem a jusante impedir a passagem. E, se um país estabelecer regras de pesca sustentável mas o vizinho não o fizer, a população continuará a diminuir.
A mensagem do relatório é, por isso, clara: sem coordenação entre países, estas migrações continuarão a desaparecer.
Onde a pressão é mais forte
A avaliação assinala grandes bacias hidrográficas em que os declínios e os riscos são especialmente urgentes.
Entre elas estão as bacias do Amazonas e do Prata-Paraná, na América do Sul; do Danúbio, na Europa; do Mekong, na Ásia; do Nilo, em África; e o sistema Ganges-Bramaputra, no subcontinente indiano.
Estas bacias não se distinguem apenas pela importância ecológica. São também politicamente complexas, pois envolvem muitos países, necessidades concorrentes de água e um desenvolvimento intenso de infraestruturas.
Atenção especial à América do Sul
Como a COP15 decorre no Brasil, o relatório dedica especial atenção aos dois grandes sistemas fluviais sul-americanos: o Amazonas e o Prata-Paraná.
O Amazonas é apresentado como um dos últimos grandes refúgios dos peixes migradores de água doce, embora o relatório avise que as pressões do desenvolvimento estão a aumentar rapidamente.
Um estudo de caso divulgado em conjunto com a avaliação identifica 20 espécies de peixes migradores da Amazónia que cumprem os critérios para uma eventual inclusão no Apêndice II da CMS.
Não se trata de peixes pouco conhecidos: são a base das pescarias amazónicas. Segundo o relatório, os peixes migradores representam cerca de 93% dos desembarques de pescado na bacia e sustentam pescarias avaliadas em 436 milhões de dólares americanos por ano.
Um plano de ação para os peixes migradores
Alguns peixes migram a distâncias que parecem quase impossíveis até serem postas no papel. Um exemplo é a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), um grande peixe-gato que vive junto ao fundo e é valorizado pela pesca comercial.
Ao longo do seu ciclo de vida, esta espécie percorre cerca de 11 000 quilómetros, desde as cabeceiras andinas até às zonas costeiras onde crescem os juvenis. O percurso é frequentemente apontado como a mais longa migração em água doce de qualquer peixe.
O Brasil e outros governos propõem um Plano de Ação Multiespécies para os Peixes-Gato Migradores da Amazónia (2026–2036), com o objetivo de proteger estes migradores de longas distâncias através da cooperação regional.
O Brasil propõe ainda a inclusão do pintado (Pseudoplatystoma corruscans) no Apêndice II da CMS, devido a preocupações de conservação na bacia do Prata.
O problema da fragmentação dos habitats
O relatório não apresenta as causas como um mistério. Pelo contrário, os fatores responsáveis são dolorosamente familiares.
As barragens e outras infraestruturas obstruem as rotas migratórias e modificam os caudais. A fragmentação dos habitats interrompe os longos corredores necessários aos peixes. A poluição deteriora a qualidade da água, enquanto a sobrepesca retira adultos a um ritmo superior à capacidade de recuperação das populações.
Por fim, as alterações climáticas modificam as temperaturas dos rios, a precipitação e a dinâmica das planícies inundáveis. Para os peixes migradores, estes ritmos sazonais são frequentemente os sinais que indicam quando devem deslocar-se.
É importante perceber que estas pressões não atuam separadamente: acumulam-se. Uma população capaz de resistir à pressão da pesca pode entrar em colapso quando as suas rotas migratórias são bloqueadas.
Da mesma forma, uma população já afetada por águas mais quentes pode diminuir abruptamente se a poluição também reduzir o oxigénio e aumentar o risco de doença.
O que os governos podem fazer
A avaliação não se limita a apresentar um cenário sombrio. Indica também instrumentos que os governos podem começar a utilizar de imediato.
O relatório salienta a necessidade de proteger os corredores migratórios e manter caudais ecológicos, para que os rios continuem a comportar-se como rios e não apenas como condutas de água. Defende planos de ação à escala das bacias e monitorização transfronteiriça, pois, sem partilha de dados, os países não conseguem reagir a tempo.
Aponta ainda para uma gestão sazonal coordenada da pesca. Essa medida é importante porque capturar peixes precisamente durante a migração pode comprometer a reprodução de um ano inteiro.
A lógica subjacente ao relatório é simples: não se podem proteger peixes migradores tratando os rios como vias de água nacionais isoladas. É necessário gerir todo o sistema interligado.
Um problema que passa literalmente despercebido
«Muitas das grandes migrações de animais selvagens do mundo ocorrem debaixo de água», observou Zeb Hogan, principal autor do estudo.
Os especialistas assinalaram que esta é uma prioridade importante de conservação que não tem recebido atenção suficiente.
«Os rios não reconhecem fronteiras - e os peixes que dependem deles também não», afirmou Michele Thieme, da WWF-EUA.
Esta crise não é acompanhada por imagens dramáticas. Os rios continuam a parecer rios e ainda se capturam alguns peixes. Contudo, as redes migratórias que mantêm vivos os ecossistemas de água doce estão a desagregar-se e, quando essas ligações desaparecem, reconstruí-las é extremamente difícil.
É por isso que esta avaliação é importante: procura chamar a atenção do mundo para o que acontece abaixo da linha de água, antes que estas migrações passem a ser recordadas no passado.
O relatório e os documentos associados podem ser consultados aqui.






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