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Túmulo real no Egito revela vestígios de um rei desconhecido

Homem com chapéu explora hieróglifos numa parede antiga, dentro de um templo egípcio.
Neste artigo
  1. A montanha de Anúbis revela pistas
  2. O interior de um túmulo real saqueado
  3. Nome do faraó apagado do reboco
  4. Um reino dividido
  5. A dinastia de Abidos ganha forma
  6. Sepultado no complexo de Neferhotep
  7. À procura do proprietário do túmulo real
  8. Trabalho lento na areia
  9. A importância deste túmulo real
  10. O que se segue

Um túmulo real foi descoberto num estado de conservação que permite compreender a sua estrutura, embora o rei que ali se pretendia homenagear tenha desaparecido da história.

A descoberta oferece uma nova perspetiva sobre um capítulo violento e fragmentado do antigo Egito, em que o poder era afirmado, perdido e substituído mais vezes do que os registos conseguiram preservar.

A montanha de Anúbis revela pistas

Escavações sob o deserto, perto da antiga cidade de Abidos, no sul do Egito, trouxeram à luz uma câmara funerária de calcário conservada a grande profundidade, cuja dimensão e disposição são inconfundivelmente reais.

Josef Wegner e a sua equipa registaram a arquitetura e a localização da câmara. Em seguida, procuraram compreender a sua integração num cemitério utilizado por reis durante uma fase de colapso político.

A estrutura remonta a uma época em que governantes rivais dominavam diferentes regiões do Egito. A instabilidade política levou-os a deixar monumentos reais sem linhas de sucessão estáveis.

Essa instabilidade ajuda a explicar por que razão o túmulo real subsiste como prova física da realeza, apesar de a identidade do próprio rei continuar por esclarecer.

O interior de um túmulo real saqueado

Os arqueólogos entraram por uma passagem revestida de reboco e encontraram uma sala principal de calcário, ladeada por câmaras mais pequenas escavadas no solo.

Sobre as salas, os construtores ergueram abóbadas de tijolo de adobe. A forma curva distribuía a carga para os lados, permitindo que os tetos se mantivessem de pé.

As cinco coberturas abobadadas atingiam cerca de 4,9 metros de altura e a sua dimensão indicava que a sepultura pertencia a alguém tratado como rei.

A disposição formal da construção permitiu delimitar o período a que pertencia e apontou para um cemitério real onde ainda se encontravam outros governantes sepultados.

Nome do faraó apagado do reboco

À entrada, a alvenaria ostentava em tempos o nome do rei, acompanhado de figuras pintadas de Ísis e Néftis, duas deusas protetoras que eram irmãs.

Os saqueadores do túmulo real rasparam o reboco, arrancando das inscrições da entrada os hieróglifos, sinais pictográficos usados para escrever palavras e nomes.

«O seu nome constava das inscrições, mas não sobreviveu à ação destrutiva dos antigos saqueadores de túmulos», afirmou Wegner.

Perante a destruição do nome, os investigadores compararam a localização e o estilo arquitetónico do túmulo real com os de sepulturas de governantes como Senaiib e Paentjeni, conhecidos através de monumentos próximos.

Um reino dividido

Os historiadores designam esta época por Segundo Período Intermediário, altura em que dinastias rivais repartiam o Egito, em vez de uma única corte governar todo o território.

No delta do Nilo, os Hicsos, governantes originários da Ásia Ocidental que controlavam o norte do Egito, dominavam portos estratégicos e obrigavam reis rivais a negociar.

«O Egito estava fragmentado em até quatro reinos rivais, incluindo o dos Hicsos no delta do Nilo», disse Wegner.

Entre 1640 a.C. e 1540 a.C., esse mapa instável traduziu-se em reinados curtos e registos incompletos. Isso explica por que motivo alguns reis desapareceram por completo da história.

A dinastia de Abidos ganha forma

Cerâmicas, inscrições e plantas de túmulos reais têm apontado para a existência da dinastia de Abidos. Tratava-se de reis locais estabelecidos na região de Abidos, durante um século marcado pela fragmentação do poder.

Em 2014, os arqueólogos descobriram o túmulo do rei Seneb-Kay na mesma necrópole, um grande cemitério destinado à realeza.

O esqueleto danificado e as marcas de armas sugeriam uma morte violenta, enquanto a própria sepultura confirmava que dinastias mais pequenas continuavam a reivindicar o estatuto de faraó.

Ao situarem Seneb-Kay entre outros governantes ali sepultados, os investigadores obtiveram um enquadramento que facilitou a interpretação do túmulo recém-descoberto, cujo proprietário permanece sem nome.

Sepultado no complexo de Neferhotep

Os construtores instalaram o novo túmulo no interior do complexo funerário mais amplo de Neferhotep I, um rei anterior cujo monumento ainda dominava a encosta.

Essa opção ligava o governante desconhecido a uma paisagem sagrada estabelecida, pois as paredes e os pátios partilhados transmitiam uma ideia de legitimidade a quem se aproximava do local.

A arquitetura da câmara recuperava também modelos mais antigos do Império Médio, ao mesmo tempo que antecipava túmulos reais posteriores da mesma época conturbada.

Quando um rei construía junto ao monumento de outro, o túmulo tornava-se uma pista sobre a forma como o poder era reivindicado num Egito sem unidade.

À procura do proprietário do túmulo real

Para restringir as hipóteses sobre a identidade do proprietário, os investigadores começaram por comparar as abóbadas de tijolo e a disposição das salas com sepulturas reais próximas.

Procuraram fragmentos de reboco, cerâmica e selos de argila, uma vez que os nomes reais surgiam frequentemente em etiquetas administrativas estampadas.

As equipas mapearam ainda a posição da câmara em relação às paredes mais antigas, pois os construtores posteriores por vezes voltavam a escavar passagens e deixavam marcas das ferramentas.

Até surgir um nome legível e inequívoco, qualquer identificação será provisória, o que evidencia a facilidade com que os registos reais podem desaparecer.

Trabalho lento na areia

A escavação de um cemitério real avança em pequenas etapas, porque as paredes de adobe podem desmoronar-se quando as vibrações soltam os grãos à sua volta.

As equipas registaram cada nível do pavimento e cada limite das entradas, já que uma pá mal colocada pode destruir pistas que não voltam a recuperar-se.

«O trabalho nos cemitérios reais é lento e meticuloso, pelo que os resultados demoram a surgir», afirmou Wegner.

Este ritmo significa que poderão aparecer mais descobertas nas proximidades, mas exige também anos de financiamento, autorizações e conservação continuada.

A importância deste túmulo real

Os investigadores consideraram o novo túmulo o maior e o mais antigo até agora conhecido desta dinastia local, embora o seu proprietário continuasse por identificar.

Depois de um túmulo ser datado, os estilos da sua alvenaria e pintura funcionam como referências, ajudando a ordenar cronologicamente as sepulturas vizinhas.

Essa ordenação é importante porque os governantes de Abidos se situaram entre os construtores de pirâmides e as sepulturas posteriores do Vale dos Reis, fazendo assim a ponte entre duas tradições funerárias.

Com o anúncio de outro túmulo real em 2025, o número crescente de descobertas aumentou também a pressão para proteger os sítios antes do regresso dos saqueadores.

O que se segue

Em conjunto, a arquitetura da câmara, os textos danificados da entrada e a sua posição junto de monumentos anteriores deram forma a um período perdido da governação egípcia.

Escavações futuras poderão ainda revelar um nome legível, mas esta história já mostra a rapidez com que o poder pode surgir e desaparecer.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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