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Obra de cabos em Norfolk revela uma villa romana inesperada

Arqueólogo a escavar e examinar mosaico antigo num local de escavação ao ar livre.
Neste artigo
  1. Porque é que os arqueólogos quase não contavam encontrar nada?
  2. O que foi descoberto sob o percurso dos cabos?
  3. Porque tinha a villa romana um complexo de banhos?
  4. O que era o objecto conhecido como Norfolk Nessie?
  5. O que revelou uma obra moderna sobre dois mil anos de história?

A construção destinada a transportar energia de um parque eólico ao longo da costa de Norfolk, em Inglaterra, trouxe à luz uma descoberta inesperada. Antes de os cabos subterrâneos serem instalados, arqueólogos abriram valas de prevenção numa zona considerada pouco promissora e encontraram uma propriedade rural romana completa, com habitação, estruturas agrícolas e até um complexo de banhos.

Porque é que os arqueólogos quase não contavam encontrar nada?

Os trabalhos arqueológicos decorreram nas imediações de Dereham, ao longo de um traçado de cabos subterrâneos com quase 64 quilómetros. Cartografia antiga, fontes históricas e prospecções por magnetómetro não assinalavam vestígios particularmente relevantes naquele local, pelo que se antecipava uma intervenção relativamente simples.

O cenário alterou-se em 2021, quando as primeiras valas de teste começaram a expor uma grande quantidade de telhas romanas. Jessica Lowther, da Headland Archaeology, disse ao Eastern Daily Press que a repetida descoberta de fragmentos durante a escavação tornou claro que existia algo significativo sob a superfície.

O que foi descoberto sob o percurso dos cabos?

Com o alargamento das escavações, os arqueólogos identificaram uma propriedade rural romana de dimensão considerável. De acordo com Lowther, o conjunto reunia uma villa, vários edifícios auxiliares, um complexo de banhos e uma estrada romana, bem como indícios inequívocos de actividades de produção e transformação de alimentos.

  • Os trabalhos revelaram uma ampla residência romana rodeada por construções auxiliares.
  • O complexo de banhos apontava para um grau de conforto superior ao habitual numa propriedade rural comum.
  • Os vestígios de cultivo e de processamento de alimentos indicaram uma actividade agrícola extensa.
  • Uma estrada romana integrava igualmente o conjunto identificado no terreno.

Num comunicado citado pela Smithsonian Magazine, a empresa energética RWE referiu que o sítio era rico e foi ocupado durante um período prolongado, havendo provas que remontam à Idade do Ferro e se estendem pela época romana. A ocupação principal da propriedade terá ocorrido por volta do ano 250.

Porque tinha a villa romana um complexo de banhos?

Os banhos ocupavam um lugar importante no quotidiano romano, não sendo exclusivos das grandes cidades. Famílias rurais com maiores recursos podiam dispor de instalações privadas destinadas à higiene, ao convívio e à afirmação de estatuto. A presença deste complexo, aliada à dimensão da residência, sustenta a interpretação de que a quinta pertencia a proprietários relativamente abastados.

Jessica Lowther salientou também a abundância de provas associadas ao cultivo e à preparação de alimentos, o que levou a equipa a classificar o sítio como uma grande propriedade agrícola. Cereais, ossos de animais e conchas de ostra recuperados nas escavações ajudam a reconstituir a alimentação, o comércio e as actividades económicas da região.

O que era o objecto conhecido como Norfolk Nessie?

Entre os artefactos, surgiu uma peça curva de bronze esverdeado cuja forma evocou de imediato a silhueta popularmente ligada ao monstro do Lago Ness. Os arqueólogos chamaram-lhe “Norfolk Nessie”, embora a peça romana não tenha qualquer ligação histórica à conhecida lenda escocesa.

Na verdade, é provável que o objecto corresponda à pega de um recipiente de bronze. Outros achados sublinharam o carácter requintado do sítio, entre os quais um anel de prata e uma pequena cabeça de leão em bronze, que provavelmente funcionava como suporte decorativo de uma cadeira ou de outro móvel utilizado pelos habitantes.

O que revelou uma obra moderna sobre dois mil anos de história?

O trajecto dos cabos expôs muito mais do que a villa. Em vários locais, os arqueólogos identificaram uma estrutura neolítica com cerâmicas e ferramentas de pedra, monumentos funerários da Idade do Bronze e aldeias medievais abandonadas. Segundo a RWE, este conjunto permite reconstituir a forma como as populações viveram, cultivaram e comercializaram na região ao longo de milénios.

Jon Darling, director do projecto, afirmou que a investigação arqueológica demonstrou de forma excepcional como aquela paisagem se transformou ao longo do tempo. O contraste é difícil de ignorar: uma infra-estrutura concebida para transportar a energia do futuro acabou por atravessar uma propriedade romana que ninguém esperava encontrar. Por vezes, bastam alguns metros de cabo para abrir uma janela sobre quase dois mil anos.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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