Milhões de pessoas passam férias na praia todos os anos em busca de sol, areia e mar, mas muitas poderão não ter consciência do perigo de cavar buracos na areia.
Em fevereiro de 2024, uma menina de 7 anos morreu depois de um buraco com cerca de 1,5 metros, que tinha escavado na areia com o irmão, desabar sobre ela e a soterrar.
Como investigador em ciência costeira, com muitos anos dedicados ao estudo de praias, fui chamado para ajudar a investigar a morte da menina. Embora várias pessoas que estavam nas imediações tenham tentado libertá-la após o colapso do buraco, os bombeiros locais só chegaram vários minutos depois do incidente, demasiado tarde para reanimar a vítima.
Escavar buracos na areia pode parecer uma brincadeira inofensiva, mas, se forem suficientemente fundos e desabarem sobre alguém, sair deles é extremamente difícil. De facto, a investigação indica que há mais mortes por asfixia resultante de soterramento em areia do que por ataques de tubarões.
Princípios básicos da areia
A areia não é, na realidade, um tipo de material: é uma categoria definida pelo tamanho das partículas, com diâmetros entre 0,06 e 2 milímetros. O tipo de areia depende dos materiais que a compõem. A areia de quartzo, constituída por dióxido de silício, é a mais comum nas praias, com exceção das costas tropicais, onde existem praias de areia de coral, formada por carbonato de cálcio.
Os materiais mais grossos do que a areia não têm uma textura macia e não permitem fazer castelos de areia resistentes. O silte e a argila, cujas partículas são mais finas do que as da areia, tornam a água turva e são habitualmente designados por lama.
O peso da areia varia consoante os materiais que a constituem. As praias de areia de quartzo pura, de tonalidade muito branca, pesam cerca de 90 libras por pé cúbico quando a areia está seca.
Contudo, a maioria das praias apresenta uma mistura de minerais, que lhes dá uma cor bege ou castanha. Os minerais que tornam a areia mais escura são bastante mais pesados: a areia da maior parte das praias pode pesar até 130 libras por pé cúbico quando seca.
Os grãos de areia secos e soltos formam uma pilha com uma inclinação de cerca de 33 graus, conhecida como ângulo de repouso. Este é o maior ângulo em que uma pilha de grãos se mantém estável, sendo essa estabilidade determinada pela força de atrito entre cada grão.
Quando está molhada, a areia é mais estável, pois a tensão superficial entre a água e os grãos consegue manter a pilha na vertical. Porém, quando seca, a pilha desaba porque essa tensão superficial deixa de existir.
Por isso, um buraco escavado na praia mantém-se estável apenas enquanto a areia permanecer húmida. Assim que seca, o buraco colapsa.
Porque é que os buracos na areia são instáveis
Quando a areia à volta do buraco seca ou alguém se coloca junto à sua margem, acrescentando peso, o buraco desaba e os grãos pesados ocupam todos os espaços vazios. Assim, não fica ar disponível para uma pessoa soterrada respirar.
Os esquiadores apanhados por avalanches podem juntar as mãos em concha para criar uma bolsa de ar, porque a neve é leve, mas isso não é possível quando a areia desaba.
Salvar alguém de um buraco de areia colapsado é muito difícil, porque a areia é simultaneamente pesada e instável. À medida que os socorristas retiram areia para libertar a vítima, o buraco continua a desmoronar-se devido ao peso dos próprios socorristas e volta a encher-se de areia. Há apenas cerca de três a cinco minutos para salvar uma pessoa presa num buraco na areia antes de ela sufocar.
Profissionais, como os bombeiros, colocam pranchas sobre o buraco quando socorrem alguém após o colapso de um buraco na areia. Desta forma, conseguem alcançar a vítima e usar ferramentas para remover a areia sem exercer peso diretamente sobre a margem.
Os especialistas recomendam que nunca se escave um buraco com mais profundidade do que a altura do joelho da pessoa mais baixa do grupo, sendo 0,6 metros a profundidade máxima.
Para salvar alguém num buraco de areia que está a colapsar, a prioridade é deixar a boca exposta e retirar a areia que está sobre o peito. Depois de expor a boca, é possível fazer ventilação de salvamento enquanto outros socorristas continuam a desenterrar o peito.
Um número excessivo de pessoas num salvamento de um buraco na areia pode causar mais prejuízo do que benefício. Apenas dois ou três socorristas devem trabalhar na zona imediata da vítima, enquanto os restantes removem a areia da área mais ampla da escavação, facilitando o trabalho de quem está no centro. As pessoas na zona exterior podem afastar a areia da área central com o que estiver disponível, desde baldes e pás a cadeiras de praia e pranchas de bodyboard.
Estudos de caso
Nos Estados Unidos, o desabamento de buracos na areia provocou 31 mortes entre 1997 e 2007, sobretudo de crianças, sendo 87% das vítimas do sexo masculino. Nesse período, houve ainda 21 pessoas envolvidas em desabamentos de buracos na areia que sobreviveram, embora muitas tenham necessitado de RCP.
As vítimas de desabamentos de buracos na areia tinham entre 3 e 21 anos. Em geral, os buracos mediam entre 0,6 e 4,6 metros de diâmetro e tinham entre 0,6 e 3,7 metros de profundidade. Escavar, fazer túneis, saltar para dentro ou cair no buraco desencadearam inadvertidamente os desabamentos.
Estes colapsos podem ocorrer de forma súbita, mesmo em situações que a maioria das pessoas não considera perigosas. Na próxima ida à praia, esteja atento aos buracos na areia e encha todos os buracos logo que possível. Até um buraco pouco profundo pode magoar alguém que tropece e caia lá dentro.
Stephen P. Leatherman, Professor de Ciência Costeira, Florida International University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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