Nos últimos anos, a taxa de cumprimento do serviço da STCP tem diminuído e os passageiros queixam-se de atrasos frequentes. A empresa afirma, contudo, que houve uma melhoria entre 2024 e 2025.
Um autocarro pára, mas Joana mantém-se sentada, a observar quem entra e prossegue viagem. Nesse fim de tarde, o banco da paragem da STCP, ao lado dos renovados azulejos azul-celeste da igreja do Carvalhido, serve-lhe de descanso enquanto espera pela hora de uma reunião no infantário do filho. A experiência é diferente de manhã, quando apanha o transporte para o trabalho, no MarShopping, em Matosinhos.
"Os autocarros atrasam muito, principalmente de manhã", lamenta Joana Cruz, que todas as manhãs deixa o filho no infantário antes de seguir para o emprego, habitualmente no 508. "Às vezes nem aparecem. E quando falham, já chego atrasada ao emprego", acrescenta. A sua perceção está próxima dos números: nos últimos cinco anos, a taxa de serviço da STCP desceu de 97,6%, em 2021, para 92% em 2024.
O Relatório e Contas indica que a taxa de cumprimento de serviço foi de 90,9% em 2025. A companhia sustenta, porém, que esse valor não corresponde à realidade, porque a fonte de cálculo passou a seguir a metodologia prevista no Contrato de Serviço Público Rodoviário. Usando o método anterior, a taxa seria de 94,6%, o que representaria uma melhoria face ao ano anterior: 5,6% de serviços não efetuados, em vez de 9,1%.
"Esta evolução positiva não diminui a necessidade de continuar a melhorar nem desvaloriza os constrangimentos sentidos pelos passageiros. A STCP reconhece que existe margem de progresso e mantém como prioridade assegurar maior regularidade e previsibilidade", afirma a Câmara do Porto, principal acionista da empresa. Entre 2024 e 2025, o número total de passageiros transportados passou de 71,6 milhões para 71,8 milhões.
Até ao final do ano, os valores poderão ser diferentes. Ainda não há dados, mas quem viaja sente a mudança. "Com os transportes de graça, há mais pessoas. Deviam aumentar a frequência dos autocarros, mas está tudo igual", lamenta Joana. Tal como muitos outros utentes, enfrenta a dificuldade de viajar em "autocarros muito cheios, sem largueza" e com pouca comodidade. "Pelo menos, agora poupo 30 euros, que é alguma coisa quando se tem uma renda de mil euros" por um T2 na zona da Prelada, no Porto.
"Se eu mandasse, punha mais autocarros a funcionar, para não andarmos todos enlatados", diz Sílvia Martins, enquanto observa a fila de veículos que avança devagar pelas duas vias da avenida de França. Espera pelo 704, sentada num dos pequenos bancos da paragem. "Às vezes param e nem abrem a porta, tão cheios que vão. Outras vezes nem param", acrescenta.
O impacto das falhas no serviço da STCP
"Não é possível estabelecer essa relação de forma automática. Uma maior procura pode aumentar os tempos de embarque e a lotação, mas não permite, por si só, explicar a supressão de uma viagem", argumenta a STCP. "O cumprimento do serviço depende de vários fatores, incluindo a disponibilidade de veículos e as condições de circulação", acrescenta. A empresa reconhece "o impacto que uma viagem não realizada tem na vida dos passageiros e a importância de reduzir estas situações."
A transportadora afirma que tem "vindo a melhorar", embora admita não ter chegado ainda ao nível de serviço que pretende. "O reforço da regularidade e da fiabilidade continua a ser uma prioridade", acrescenta, em resposta às perguntas do JN.
Sílvia Martins nasceu em Felgueiras, fez a sua vida no Porto e utiliza frequentemente a STCP. "Há muitos autocarros a falhar. Às vezes espero meia-hora ou mais e depois chegam dois seguidos", conta. Entre os veículos e a névoa de fumo expelido por uma carrinha antiga, surge o 704 com destino à Codiceira. Sílvia, primeira na fila, entra, seguida de uma dezena de pessoas, provavelmente sem reparar que, a poucos metros, vem outro autocarro para o mesmo destino.
"A meu ver, esse é um dos problemas. Estamos aqui muito tempo à espera e depois aparecem todos ao mesmo tempo", diz Ruben Teixeira. "Não percebo porque é que têm de vir todos em cortejo. É por isso que se forma fila", acrescenta, encostado a uma das paragens da Casa da Música, onde passam seis linhas de autocarro. "Os horários não estão a coincidir", observa, olhando para a rotunda da Boavista na esperança de avistar o 203, que segue para o Estádio do Dragão.
"Importa distinguir a interrupção de uma viagem de uma decisão de regulação do serviço. Quando dois autocarros da mesma linha circulam muito próximos, pode ser necessário reorganizar a operação", explica a STCP. "Nestas situações, a continuidade da viagem deve ser assegurada e a alteração devidamente explicada aos passageiros", acrescenta. A empresa afirma não dispor de dados que permitam confirmar um aumento destes casos a partir dos registos de reclamações na Linha Azul.
Um grande transtorno
Para os passageiros, a perspetiva é outra. "Os autocarros atrasam muito e às vezes nem aparecem", diz Teresa. "É um transtorno muito grande. Sou trabalhadora-estudante e muitas vezes chego atrasada às aulas ou ao trabalho. Acabei por deixar o emprego porque não ia conseguir chegar a tempo a tudo. Vou passar a trabalhar só no verão", acrescenta a estudante, que está concentrada nos estudos no ISPGAIA.
"Mesmo vivendo e estudando em Gaia, é difícil. Imagino ter de vir para o Porto todos os dias de autocarro", afirma Teresa, consultando a aplicação Google Maps para perceber quanto falta para chegar o 904. "Às vezes diz que estão perto e depois desaparecem", lamenta. "Falham muito e às vezes nem aparecem", acrescenta.
Pedro também já recorreu a uma aplicação para acompanhar os autocarros. "Várias vezes diz que demora dois minutos e depois desaparecem. Outras vezes aparecem, mas a dizer fora de serviço", conta. Depois de mais de meia hora de pé na paragem perto da Casa da Música, diz ter a perceção de que "há muitos serviços não efetuados". "Hoje está a ser mais demorado que o habitual", acrescenta.
Depois de um dia de trabalho, regressa a casa com um saco de compras do supermercado. Nasceu na Venezuela e vive no Porto há mais de 20 anos. Considera-se já mais português do que venezuelano e admite que os transportes públicos funcionam "muito melhor, sem comparação" com os do país onde nasceu. "Se fosse português, estava aqui dizer palavrões enquanto espero. Assim, fico caladinho", diz. O autocarro chega quase cheio, mas, para Pedro, que está entre os primeiros da fila, vem meio vazio.
Dados da operação da STCP
Mais motoristas
A frota da STCP conta com 444 autocarros. De acordo com o Relatório e Contas, entre 2024 e 2025 o número de viaturas utilizadas na ponta máxima aumentou de 383 para 389. No mesmo período, o total de motoristas passou de 983 para o valor recorde de 1016.
Aumento da velocidade
A velocidade média do serviço subiu de 15,2 para 15,8 quilómetros por hora entre 2024 e 2025. Já a taxa de ocupação dos autocarros permaneceu nos 15% de um ano para o outro.
Gratuitidade
A STCP considera que ainda é cedo para fazer uma avaliação sustentada do impacto da gratuitidade dos transportes no Porto, em vigor desde 17 de julho. "Nos meses de julho e agosto, o número de passageiros transportados foi muito semelhante ao registado nos mesmos meses do ano passado", especificou.
Adequação
Um aumento da procura "pode exigir ajustamentos em determinadas linhas e períodos, mas essa necessidade deve ser avaliada com base nos dados de utilização e na capacidade disponível". A prioridade "é adequar os recursos às necessidades do serviço e melhorar a regularidade da operação".
Mudanças
Está a decorrer um estudo para reprogramar a rede, as frequências e os percursos da STCP no Porto. A expansão do Metro e a introdução do metrobus representam oportunidades para melhorar a complementaridade entre os vários modos de transporte.






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