Enormes elementos de pedra do Farol de Alexandria foram recuperados do fundo do mar, naquela que é a recuperação física mais completa do monumento desde o seu desmoronamento.
A descoberta torna mais nítidos os contornos de uma maravilha desaparecida e redefine o que se pode conhecer, reconstruir e testar sobre a sua forma final e a sua queda.
Uma entrada do Farol de Alexandria regressa à luz do dia
Grandes blocos arquitetónicos retirados do Porto Oriental de Alexandria trouxeram de novo à vista uma parte determinante do farol, pela primeira vez em séculos.
O exame direto destas pedras foi documentado sob a direção científica de Isabelle Hairy, arqueóloga e arquiteta do Centro Nacional de Investigação Científica de França (CNRS).
A análise permitiu associar as peças recuperadas à entrada principal do monumento.
Os elementos da porta permaneceram submersos desde que uma sucessão de terramotos medievais desmantelou a torre por etapas, espalhando os seus maiores componentes pelo fundo do porto.
A recuperação estabelece limites físicos para as especulações e fornece um ponto de referência fixo antes de a reconstrução avançar para o resto da estrutura.
O que revelam os blocos
As equipas içaram 22 blocos de granito e calcário, cada um com um peso próximo das 77 toneladas.
Vários pertenciam à entrada principal, entre eles lintéis, as vigas horizontais que atravessam a parte superior das portas, bem como pedras laterais verticais e lajes de soleira.
Os estilos de talhe identificados na pedra correspondiam a tradições egípcias e a práticas de construção gregas, mostrando como os projetistas combinaram as duas técnicas.
Como os elementos de uma porta fixam a planta de um edifício, as suas formas permitem orientar a restante reconstrução com menos suposições.
Mapear o fundo do mar
Muito antes da chegada da grua, as equipas do CNRS localizaram os vestígios do farol numa extensa área do fundo do porto.
Em 2014, o seu mapa submarino registava quase 3.000 blocos; trabalhos posteriores elevaram a contagem para perto de 5.000 fragmentos.
A pouca profundidade facilitou o trabalho dos mergulhadores, mas as ondas e as águas de escoamento mantiveram a visibilidade reduzida e dispersaram os fragmentos por cerca de 1,6 hectares.
O mapa pormenorizado acelerou a nova operação de içamento, pois permitiu às equipas procurar diretamente as pedras da entrada, em vez de as procurarem às cegas.
Das fotografias às medições
Depois de cada bloco ser trazido à superfície, as equipas fotografaram todas as faces, registando com nitidez lascas, orifícios e marcas de ferramentas.
Recorreram à fotogrametria, um método que cria modelos tridimensionais a partir de fotografias tiradas de vários ângulos.
Um programa informático relacionou essas imagens e calculou depois a forma de cada bloco com precisão suficiente para que os investigadores a pudessem medir mais tarde.
A água turva e as areias em movimento continuam a ocultar algumas superfícies, pelo que subsistem lacunas até os mergulhadores fotografarem as faces em falta.
Construir o farol digital
Após a digitalização, os engenheiros reuniram as peças num gémeo digital: uma cópia tridimensional que é atualizada ao longo do tempo.
O programa permitiu à equipa rodar os blocos, testar encaixes e identificar as arestas correspondentes, sem desgastar a pedra para forçar as uniões.
Quando os modelos ficaram alinhados, as equipas realizaram simulações para avaliar como a torre se mantinha de pé e que padrões sísmicos poderiam provocar-lhe fissuras.
A versão no ecrã não substitui o local real, mas permite aos investigadores comparar reconstruções concorrentes sem içar todos os blocos.
O desmoronamento da torre
Construído no início da era helenística, período de domínio grego que se seguiu a Alexandre Magno, o farol orientou durante séculos os navios até Alexandria.
Um estudo geológico francês explicou por que razão subsiste pouco calcário: construtores de épocas posteriores reutilizaram esses blocos, que eram mais fáceis de cortar.
Os terramotos sucessivos enfraqueceram a torre e partes dela caíram na água, onde as ondas arrastaram as peças e as acumularam em conjuntos difíceis de interpretar.
Como a queda ocorreu por etapas, os arqueólogos têm agora de identificar peças de diferentes reconstruções, misturadas debaixo de água.
Pistas guardadas no metal
As superfícies das pedras apresentam sulcos pouco profundos e orifícios de encaixe, sinais de que os construtores recorreram a fixações metálicas, e não a camadas espessas de argamassa.
Uma nota académica afirmou que o projeto foi erguido em apenas 15 anos, em parte porque os grampos substituíram materiais de ligação de endurecimento lento.
A mesma nota sugeriu que alguns monólitos de granito vieram de um local do Império Antigo em Abu Rawash, datado do início da época de construção das pirâmides no Egito.
Se houve reutilização, o farol incorporava histórias mais antigas nas suas paredes, o que complica qualquer reconstrução simples.
A água do mar como proteção
A exposição ao ar desencadeia outro tipo de deterioração, pois os cristais de sal crescem à medida que a pedra molhada seca ao sol.
Os conservadores lavaram e estabilizaram as superfícies e, em seguida, abrandaram a secagem para impedir que as fissuras se propagassem pelas faces dos blocos.
Para muitos fragmentos, as equipas preferiram a digitalização seguida de nova submersão, uma vez que um fundo marinho estável protege muitas vezes melhor a pedra do que a exposição ao ar.
As regras egípcias limitaram a recuperação permanente a peças com menos de cerca de 100 quilogramas, tornando essenciais os registos digitais dos blocos maiores.
O que uma reconstrução pode oferecer
Um modelo concluído poderia mostrar aos visitantes a verdadeira escala do farol, mantendo as pedras frágeis fora do seu alcance.
Os museus poderiam projetar percursos virtuais e explicar a engenharia antiga, usando os blocos digitalizados como prova.
Os vestígios de uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo voltaram à superfície no Mediterrâneo após mais de 1.600 anos debaixo de água.
Ainda assim, a reconstrução digital dependerá de peças em falta que poderão nunca ser encontradas, deixando algumas partes permanentemente incertas.
Uma maravilha reconstruída peça a peça
Ao combinar os blocos içados com anos de digitalizações submarinas, os investigadores podem elaborar uma planta coerente de um monumento desaparecido.
Futuros mergulhos e uma conservação cuidadosa determinarão que parte do farol poderá ser apresentada ao público e que parte permanecerá debaixo de água.






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