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Escavações no Palais de Justice revelam a cidade soterrada de Paris

Arqueólogo com capacete e colete reflete junto a ruínas antigas numa catedral iluminada por vitrais.
Neste artigo
  1. Um marco judicial que esconde uma cidade soterrada
  2. Uma imponente muralha antiga que pode redesenhar o mapa romano
  3. Um cemitério oculto no pátio do palácio
  4. Ladrilhos medievais e uma cave real desaparecida
  5. O que se segue na Île de la Cité
  6. Como a arqueologia preventiva muda o planeamento urbano
  7. Termos essenciais para compreender o local

Em vez disso, as pás embateram na pedra e, em silêncio, a História veio à superfície.

No centro da Île de la Cité, onde advogados, juízes e turistas se cruzam diariamente, uma intervenção de renovação corrente no Palais de Justice revelou uma oportunidade rara para observar quase dois milénios de vida urbana.

Um marco judicial que esconde uma cidade soterrada

O Palais de Justice é habitualmente ligado a salas de audiência, julgamentos mediáticos e longas filas de pessoas que passam pelos controlos de segurança. Poucos imaginariam que, sob os seus pátios, permanecem vestígios intactos da Paris romana, medieval e do início da época moderna.

Antes do arranque de obras de reabilitação de grande dimensão, a legislação francesa impôs escavações arqueológicas «preventivas». Entre agosto e novembro de 2025, equipas da Cidade de Paris e do Instituto Nacional de Investigação Arqueológica Preventiva de França (Inrap) analisaram pouco mais de 100 metros quadrados na Cour du Mai, o principal pátio cerimonial.

«Numa área pouco maior do que um campo de ténis, os arqueólogos identificaram estruturas que vão do final do século I a.C. ao século XVIII.»

As descobertas obrigam os historiadores a reconsiderar a organização e a fortificação da Île de la Cité, bem como a evolução do palácio real muito antes de este se transformar no atual tribunal.

Uma imponente muralha antiga que pode redesenhar o mapa romano

Uma estrutura com três metros de largura da Antiguidade Tardia

O elemento mais marcante é a base de uma muralha monumental, com cerca de três metros de espessura. Trata-se de uma dimensão considerável, mesmo para os padrões romanos, mais próxima da escala de uma fortificação defensiva do que da fundação de uma casa.

As primeiras análises apontam para uma datação no Baixo Império Romano, entre os séculos III e V d.C., quando a cidade romana de Lutécia, atual Paris, encolheu e protegeu o seu núcleo perante a instabilidade e as incursões na fronteira do Reno.

«Se for confirmada como parte da muralha do Baixo Império Romano, esta estrutura poderá alterar o traçado conhecido das mais antigas fortificações de pedra de Paris.»

Até agora, os historiadores propunham um determinado percurso para a muralha que rodeava a Île de la Cité durante a Antiguidade Tardia. A nova estrutura encontra-se num local onde ninguém previa a existência de uma fortificação, sugerindo que a área defendida poderia ser maior ou ter uma configuração diferente da anteriormente aceite.

Indícios da ocupação romana inicial

A muralha não surgiu isolada. Na zona envolvente, os arqueólogos registaram cerca de vinte fossas, vários buracos de poste e seis sepulturas de inumação simples.

Sob estes vestígios, identificaram-se estruturas ainda mais antigas, incluindo cortes no solo datados do final do século I a.C. ou do início do século I d.C. Este período coincide com a passagem de um povoado gaulês para uma cidade plenamente romanizada.

Estes sinais mais antigos indicam que o setor era utilizado nos primeiros tempos da presença romana, embora a sua função exata continue em estudo. Poderá ter sido uma área aberta, com construções leves, fossas de armazenamento ou atividades artesanais, transformada gradualmente à medida que a cidade se adensava e fortificava.

Um cemitério oculto no pátio do palácio

Um dos aspetos mais comoventes da escavação foi a identificação de uma pequena zona funerária. No total, os arqueólogos documentaram onze sepulturas, algumas associadas às fases do Baixo Império Romano e da Alta Idade Média.

As campas eram simples, com os corpos depositados diretamente na terra, e não em elaborados sarcófagos de pedra. Este pormenor sugere uma população modesta - talvez moradores de um bairro junto ao rio ou pessoas ligadas a um antigo complexo eclesiástico.

«O pátio tranquilo utilizado hoje pelos advogados serviu outrora, pelo menos em parte, de local de repouso para habitantes da Paris antiga.»

A análise osteológica dos próximos meses ajudará a determinar a idade, o sexo, o estado de saúde e as possíveis origens destes indivíduos. Estudos de isótopos estáveis poderão até revelar se cresceram localmente ou se migraram de outras províncias romanas.

Ladrilhos medievais e uma cave real desaparecida

Do palácio real ao tribunal

A história não termina com Roma. As camadas da Idade Média e do início da época moderna demonstram a profunda transformação do local após a construção do palácio real capetíngio na Île de la Cité.

Os arqueólogos encontraram espessas camadas de demolição, provavelmente relacionadas com as grandes obras de reconstrução que se seguiram a um incêndio devastador em 1776. Estes níveis continham um vasto conjunto de fragmentos arquitetónicos e materiais decorativos.

Entre os achados figuravam numerosos ladrilhos de pavimento «historiados», dos séculos XIII e XIV, decorados com flores-de-lis e motivos animais. São conhecidos ladrilhos semelhantes na Cour Carrée do Louvre, associando o palácio da ilha a programas decorativos reais mais amplos na Paris medieval.

«Os ladrilhos mostram que esta parte do local integrou em tempos um espaço ricamente decorado da residência real capetíngia.»

Uma cave medieval ausente dos mapas

Talvez ainda mais surpreendente tenha sido a identificação dos restos de uma cave medieval, relacionada com o palácio real, mas ausente de todas as plantas históricas conhecidas.

Para os historiadores que dependem fortemente de gravuras antigas e desenhos arquitetónicos, esta descoberta é um aviso claro: mesmo numa cidade tão documentada como Paris, algumas estruturas nunca foram registadas ou foram representadas de forma incorreta.

  • Fase do Baixo Império Romano: muralha espessa, fossas e sepulturas iniciais
  • Fase da Alta Idade Média: continuidade do uso funerário e reorganização do espaço
  • Fase real medieval: pavimentos decorados, caves do palácio e áreas de serviço
  • Fase moderna: demolição e reconstrução após 1776, conduzindo ao atual tribunal

Cada camada corresponde a um projeto urbano distinto no mesmo pequeno pedaço de terreno, sobreposto aos anteriores.

O que se segue na Île de la Cité

Os trabalhos atuais constituem apenas o primeiro ato. Está prevista uma segunda campanha de escavações para a primavera de 2026, noutra parte do complexo do Palais de Justice. Essa fase poderá confirmar o alinhamento da provável muralha romana e revelar até onde se estendia o palácio medieval.

Para lá do trabalho no terreno, os especialistas passarão anos a tratar o material já retirado do solo. Fragmentos cerâmicos, ossos de animais, restos vegetais e materiais de construção contêm pistas sobre alimentação, redes comerciais, clima e técnicas construtivas.

«A escavação é menos um acontecimento isolado do que o início de uma longa investigação sobre a formação da Paris central.»

Os investigadores irão comparar os resultados com fontes de arquivo, como decretos reais, levantamentos do século XVIII e antigos planos cadastrais. Quando os dados arqueológicos contradizem esses documentos, surgem frequentemente novos debates sobre o que existiu em cada lugar e em que época.

Como a arqueologia preventiva muda o planeamento urbano

Esta operação é um caso exemplar de «arqueologia preventiva», um sistema amplamente utilizado em França e no resto da Europa. Sempre que um grande projeto de construção ameaça danificar património soterrado, os arqueólogos intervêm primeiro.

Não impedem o desenvolvimento por tempo indeterminado. Em vez disso, registam, recolhem amostras e, quando necessário, salvaguardam os vestígios essenciais antes da entrada dos construtores. O custo é geralmente integrado no orçamento do empreendimento.

Etapa O que acontece
Avaliação Estudos históricos e geofísicos estimam o potencial arqueológico.
Sondagens Pequenas prospeções verificam se existem vestígios significativos.
Escavação integral As equipas registam e removem estruturas nas áreas mais afetadas pelas obras.
Análise Os laboratórios datam, classificam e interpretam os achados.
Publicação Os resultados alimentam estudos académicos e ações de divulgação pública.

Numa cidade como Paris, esta abordagem constrói progressivamente um modelo detalhado e rico em dados sobre a evolução dos bairros, complementando textos históricos e mapas antigos.

Termos essenciais para compreender o local

Para quem não é especialista, parte do vocabulário associado às escavações do Palais de Justice pode parecer obscuro. Alguns conceitos ajudam a enquadrar as descobertas:

  • Île de la Cité: a ilha central do Sena, frequentemente considerada o núcleo histórico de Paris, onde se encontram a Notre-Dame, a Conciergerie e o Palais de Justice.
  • Baixo Império: aproximadamente os séculos III a V d.C., um período de instabilidade política no Império Romano, durante o qual muitas cidades se contraíram e fortificaram os respetivos centros.
  • Ladrilhos historiados: ladrilhos de pavimento com imagens, brasões ou cenas narrativas, típicos de edifícios medievais de elevado estatuto.
  • Escavação preventiva: trabalho arqueológico realizado antes de uma construção, e não após descobertas acidentais.

Para residentes e visitantes de Paris, estes termos traduzem uma realidade simples: cada pátio de pedra e cada fila diante de uma porta de segurança podem assentar diretamente sobre ruas, casas ou cemitérios anteriores. Da próxima vez que alguém atravessar a Cour du Mai a caminho de um julgamento ou de uma marcação administrativa, estará a caminhar sobre um vasto arquivo estratificado do passado da cidade.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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