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Jogos Olímpicos de Paris: será seguro nadar no rio Sena?

Nadador com fato e touca, junto ao rio Sena, preparando-se para entrar na água com Torre Eiffel ao fundo.
Neste artigo
  1. Porque nadar no Sena?
  2. Como se limpa um rio como o Sena?
  3. O que está em risco?

Cinco das provas mais aguardadas dos Jogos Olímpicos de Paris serão as maratonas de natação de 10 quilómetros, masculina e feminina, e a etapa de natação de 1.500 metros de três provas de triatlo.

A razão é simples: todas decorrerão no rio Sena, no centro de Paris. Os nadadores - entre os quais estarão quatro australianos - passarão por marcos conhecidos, como o Museu d'Orsay, enquanto atravessam a zona histórica da cidade. Para o público, o cenário terá um enorme atractivo visual.

Mas será seguro para os atletas? Os rios que atravessam grandes cidades estão frequentemente poluídos, seja por águas pluviais, contaminação química ou descargas de águas residuais. Ao passarem pelo Museu dos Esgotos de Paris, os maratonistas poderão perguntar-se se estarão realmente a nadar em água limpa.

Há mais de 100 anos que nadar no Sena é, na verdade, proibido, devido às preocupações com os efeitos da água na saúde humana. As autoridades têm procurado recuperar a qualidade do rio e investiram 2,2 mil milhões de dólares australianos (€1,3 mil milhões) nessa melhoria.

O objectivo é reduzir a contaminação bacteriana em 75% antes de o primeiro nadador entrar na água. As intervenções já estão a produzir resultados, mas as chuvas intensas registadas recentemente fizeram disparar os níveis de bactérias.

Embora os responsáveis tenham demonstrado confiança, existe agora um plano de contingência para o caso de o Sena não ser seguro.

Porque nadar no Sena?

Os rios urbanos têm uma reputação duvidosa. Ainda assim, esta não é a primeira ocasião em que o rio Sena acolhe provas olímpicas de natação.

Nos Jogos Olímpicos de Paris de 1900, as sete provas de natação realizaram-se todas no rio. Estes foram os primeiros Jogos Olímpicos modernos em que as mulheres puderam competir em algumas modalidades, embora a natação não estivesse entre as permitidas.

O nadador australiano participante, Frederick Lane, teve de competir sob a bandeira do Reino Unido, pois a Austrália só teria uma bandeira após a Federação, no ano seguinte. Conquistou duas medalhas de ouro.

Uma delas foi obtida nos 200 metros livres; a outra, numa prova invulgar que nunca mais se repetiu: os 200 metros de natação com obstáculos, em que os atletas tinham de passar por cima de postes e embarcações. Estes Jogos incluíram também a primeira e última prova de natação subaquática, igualmente disputada no Sena.

Naquela época, as águas do Sena eram mais limpas. Isso devia-se à elevada procura de dejectos humanos para uso agrícola - e as cidades eram a principal fonte. Os chamados “resíduos nocturnos” tinham então valor comercial efectivo. Ninguém pensaria em despejá-los nos rios.

Com o passar do tempo, porém, desenvolveram-se sistemas de esgotos e surgiram outros fertilizantes, como o guano e os fertilizantes minerais. No início do século XX, a maior parte das águas residuais da cidade acabava no Sena. Em 1923, entrou em vigor a proibição de nadar no rio.

No ano seguinte, Paris recebeu os Jogos Olímpicos pela segunda vez, e os nadadores competiram em piscinas de 50 metros.

Nos últimos anos, muitas cidades em todo o mundo têm procurado recuperar as suas vias de água urbanas. Nadar em rios é hoje habitual em cidades como Copenhaga, Berlim e Viena, onde a saúde dos rios melhorou de forma acentuada.

Como se limpa um rio como o Sena?

Recuperar o Sena é uma tarefa difícil. Paris alberga 11 milhões de pessoas e tem bastante actividade industrial. Os rios urbanos são quase inevitavelmente contaminados pelos resíduos produzidos na cidade que os rodeia.

Os sistemas de esgotos com fugas ou transbordamentos constituem uma das principais fontes de poluição. Em países como o Reino Unido, as descargas de esgotos nos cursos de água tornaram-se uma questão política importante.

Quando as águas residuais chegam aos rios, transportam poluentes e grandes quantidades de microrganismos causadores de doenças, como a Escherichia coli - mais conhecida por E. coli. A água não tratada pode conter vírus, bactérias e protozoários que provocam doenças.

Na preparação para os Jogos de Paris, as autoridades têm trabalhado para melhorar suficientemente a qualidade da água e devolver parte das provas olímpicas de natação ao Sena. As águas pluviais - frequentemente contaminadas por fezes de cães ou por transbordamentos de esgotos - estão a ser tratadas antes de serem lançadas no rio.

Apesar do investimento e do esforço, subsistem dúvidas reais sobre se estas medidas serão suficientes para garantir a segurança dos nadadores. Devido às chuvas invulgarmente fortes, os níveis de bactérias atingiram valores de risco na maioria dos dias de junho, embora a água tenha melhorado em julho.

Esta semana, a ministra francesa do Desporto, Amélie Oudéa-Castéra, nadou alguns metros no Sena numa tentativa de dissipar as preocupações.

Em contraste, as restantes provas olímpicas de natação decorrerão numa piscina de 50 metros construída recentemente, cuja qualidade da água será muito elevada. A água da piscina é filtrada e tratada com um desinfectante, como cloro ou bromo. Será analisada regularmente para assegurar condições óptimas.

Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, os triatletas tiveram de nadar na poluída baía de Tóquio. No entanto, receios semelhantes relativos a doenças não se confirmaram. O verdadeiro desafio foi o calor sufocante.

O que está em risco?

Se as provas se realizarem quando os níveis bacterianos forem perigosos, a consequência mais provável será uma infecção gastrointestinal.

Os responsáveis têm algum controlo sobre esse risco. A contaminação é mais grave após chuva intensa, pelo que as provas podem ser adiadas, se necessário.

Muitos nadadores - sobretudo os que competem em provas de águas abertas - estão habituados a nadar em água com algum grau de poluição. Alguns consideram que o risco compensa. O bicampeão mundial italiano Gregorio Paltrinieri afirmou em janeiro:

“Mesmo que a água esteja suja, prefiro nadar numa atmosfera eléctrica no centro de Paris a fazê-lo num troço de água anónimo.”

Os organizadores de Paris 2024 tinham anteriormente alertado que não existia um plano B para as maratonas de 10 km no Sena caso os testes à qualidade da água fossem desfavoráveis. Contudo, essa posição mudou. Se o rio não estiver suficientemente limpo, as provas de natação em águas abertas serão transferidas para o recinto de remo.

O triatlo olímpico está previsto com uma etapa de natação no Sena. Porém, os triatletas foram informados de que essa etapa poderá ser eliminada se a água não for segura, transformando a competição num duatlo de corrida e ciclismo.

À medida que a atenção mundial se vira para Paris, haverá muitos responsáveis apreensivos nos bastidores, na esperança de que o trabalho realizado para tornar o Sena adequado para nadar dê resultado.

Ian A. Wright, Professor Associado de Ciência Ambiental, Western Sydney University

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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