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Como a mina de As Pontes se transformou num lago com 547 mil milhões de litros

Dois pessoas em plataforma observam e acenam para lago circular rodeado por encostas rochosas e vegetação.
Neste artigo
  1. Como é que uma mina tão funda foi convertida num lago?
  2. De onde vieram os 547 mil milhões de litros de água do Lago de As Pontes?
  3. Porque foi a qualidade da água um dos principais desafios?
  4. O lago tem realmente 300 metros de profundidade?
  5. O que existe hoje no local onde funcionou uma mina de carvão durante décadas?

Na Galiza, no noroeste de Espanha, uma antiga exploração de lignite deixou uma escavação com mais de 300 metros de profundidade depois de décadas de actividade. Em Janeiro de 2008, teve início um vasto projecto de recuperação ambiental para converter o vazio da mina de As Pontes num lago. Quando o enchimento ficou concluído, em Abril de 2012, a antiga área mineira continha cerca de 547 mil milhões de litros de água.

Como é que uma mina tão funda foi convertida num lago?

A exploração a céu aberto em As Pontes criou uma cavidade de dimensões gigantescas. Entre 1976 e 2007, foram extraídas aproximadamente 261 milhões de toneladas de lignite, com a deslocação de enormes quantidades de materiais para alcançar as camadas de carvão. Após o fim da actividade extractiva, abandonar simplesmente o terreno não constituía uma resposta adequada para uma área daquela dimensão.

A solução adoptada consistiu em inundar a escavação de forma controlada, integrando-a novamente no sistema hídrico local. Antes de se iniciar o enchimento, foram realizados estudos sobre a estabilidade dos taludes, a qualidade da água, os caudais disponíveis e o comportamento químico que o futuro lago poderia ter.

  • O enchimento teve início em Janeiro de 2008;
  • A capacidade prevista era de cerca de 547 milhões de metros cúbicos;
  • A área final atingiu aproximadamente 865 hectares;
  • O lago tem um perímetro de cerca de 17,8 quilómetros;
  • A profundidade máxima da água situa-se em torno dos 200 metros.

De onde vieram os 547 mil milhões de litros de água do Lago de As Pontes?

O processo não consistiu apenas em bombear água para o interior da mina. O Lago de As Pontes foi alimentado pelo rio Eume, pela chuva, pelo escoamento superficial, pelas águas subterrâneas e por outras bacias que tinham sido alteradas durante a exploração mineira. O sistema foi concebido para gerir quer o ritmo de enchimento, quer a composição química da água.

Porque foi a qualidade da água um dos principais desafios?

Em zonas de antigas minas, os minerais expostos pela escavação podem gerar águas ácidas quando entram em contacto com oxigénio e água. Por esse motivo, em As Pontes não bastava atingir uma determinada cota de água: era indispensável antecipar as concentrações de metais, sulfatos, acidez e outras características antes de o lago começar a descarregar para os cursos de água próximos.

A monitorização revelou uma particularidade relevante: o lago passou a apresentar duas zonas de água, separadas por uma denominada quimioclina. A camada superficial tem condições oxigenadas e uma acidez relativamente baixa, enquanto as águas profundas são mais ácidas e têm menos oxigénio. Ainda assim, as medições da água descarregada mantiveram-se dentro dos limites definidos pelo projecto.

  • A composição química da água foi acompanhada durante o enchimento;
  • Foram utilizados modelos para calcular a mistura de água proveniente de diferentes origens;
  • Também foi analisada a estabilidade dos antigos taludes da mina;
  • Os cursos de água desviados pela exploração foram reincorporados no sistema;
  • A monitorização prosseguiu depois de o lago alcançar o seu nível final.

O lago tem realmente 300 metros de profundidade?

A referência aos 300 metros diz respeito à profundidade atingida pela escavação mineira, que ultrapassou esse valor em determinadas zonas. O lago que se formou no seu interior é menos profundo: os projectos técnicos indicam uma profundidade de cerca de 206 metros. Com aproximadamente 865 hectares e 547 hectómetros cúbicos de água, a Endesa classifica-o como o maior lago de Espanha em volume e superfície entre os criados através deste tipo de recuperação.

O que existe hoje no local onde funcionou uma mina de carvão durante décadas?

A reconversão da antiga mina de As Pontes deu origem a uma paisagem muito diferente da que a actividade mineira tinha deixado. Para além da vasta massa de água, a recuperação das zonas envolventes criou vegetação, habitats para animais e espaços destinados a banhos e actividades recreativas. Levantamentos divulgados pela empresa responsável pelo projecto identificaram centenas de espécies de plantas e vertebrados na área recuperada.

O resultado não elimina as décadas de transformação causadas pela extracção de lignite, nem converte automaticamente uma mina num ecossistema natural. Mostra, contudo, a dimensão que uma recuperação pós-mineração pode alcançar: uma enorme cavidade industrial recebeu 547 mil milhões de litros de água em pouco mais de quatro anos e tornou-se um novo elemento permanente da paisagem galega, no lugar onde existia uma das maiores minas de carvão a céu aberto de Espanha.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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