Saltar para o conteúdo
Notícias

Mais de 2 300 castores estão a redesenhar os rios da Europa

Castores junto a um riacho com um especialista a observar e fazer anotações ao lado da margem.
Neste artigo
  1. Quando os castores regressam, a paisagem deixa de ser a mesma
  2. Como os castores reparam discretamente o que os humanos estragaram de propósito
  3. O que acontece quando 2 300 castores passam a ser 20 000?

É o estalido seco de dentes na madeira de salgueiro. Nas águas rasas, vultos escuros deslizam como submarinos baixos e peludos, arrastando ramos com o dobro do seu tamanho. A meio da manhã, uma margem lamacenta que ontem parecia sem vida fervilha subitamente de movimento: a água roda em torno de uma barragem recente, libélulas pairam no ar e uma garça experimenta as novas águas baixas em busca de pequeno-almoço.

Por detrás desta cena tranquila há, algures, uma folha de cálculo. Nela, equipas de conservação assinalaram discretamente a reintrodução de mais de 2 300 castores em toda a Europa, da Escócia a Espanha.

Estes animais não se limitam a sobreviver. Estão a redesenhar rios em tempo real.

E o mundo à sua volta está a mudar mais depressa do que alguém previa.

Quando os castores regressam, a paisagem deixa de ser a mesma

Ao caminhar junto de um curso de água colonizado por castores, sente-se a transformação antes de a ver por completo. O solo torna-se mais macio, o ar mais fresco e o som da água deixa de ser uma corrente única para passar a um murmúrio sobreposto. Lagos, canais laterais, fios de água a insinuarem-se pela relva. As árvores ficam parcialmente abatidas em ângulos invulgares, como se tivessem sido apanhadas a meio da queda e esquecidas pela gravidade. Para quem cresceu a associar rios arrumados a margens direitas e água desimpedida, o cenário parece desordenado, quase errado.

Depois repara-se nas rãs.

E nas aves que não estavam ali no ano anterior.

Ao longo da última década, ONG e organismos públicos transferiram ou apoiaram discretamente mais de 2 300 castores-europeus por toda a Europa. Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Bélgica, Suíça e até zonas de Espanha e Portugal têm agora libertações autorizadas ou recolonizações naturais facilitadas pela intervenção humana. Nas Terras Altas da Escócia, equipas de monitorização viram uma família experimental no rio Tay multiplicar-se em dezenas de territórios. Nos Países Baixos, biólogos registaram uma explosão de novos canais laterais e charcos em áreas que tinham sido drenadas e retificadas durante décadas.

Numa quinta da Baviera, uma única família de castores converteu uma vala impecavelmente cuidada numa sucessão de lagoas que se mantiveram húmidas durante um verão brutal. Voluntários locais registaram o regresso de libélulas, a nidificação de guarda-rios e um aumento acentuado do número de anfíbios em apenas três épocas. Nada disto resultou de uma obra em betão nem de um plano de engenharia de um milhão de euros. Resultou de alguns roedores determinados, que trabalham sobretudo durante a noite.

Há uma razão para os ecólogos chamarem aos castores “engenheiros dos ecossistemas”. Cada barragem abranda a corrente, distribui a água lateralmente e favorece a sua infiltração no solo, em vez de a deixar correr rapidamente para jusante. Esse gesto simples altera todo o enredo de uma paisagem. Os picos de cheia diminuem. Os caudais de base no verão aumentam. Os sedimentos que antes obstruíam canais a jusante começam a depositar-se em lagoas mais calmas, formando novos solos de zonas húmidas. Com mais água parada, regressam as plantas adaptadas a solos encharcados. Os insetos seguem as plantas. Os peixes encontram novos abrigos. As aves chegam atraídas pelos peixes e pelos insetos. A teia ecológica adensa-se, nó lamacento após nó lamacento.

Aquilo que, para um caminhante ocasional, parece caos é, numa escala temporal mais lenta, o reinício de processos de zonas húmidas há muito interrompidos.

Como os castores reparam discretamente o que os humanos estragaram de propósito

O “método” básico de um castor é quase cómico pela sua simplicidade. Encontra água corrente. Corta madeira. Empilha ramos. Compacta-os com lama. Escuta. Se o som da água a correr continuar forte, constrói mais. Se se transformar num gotejar suave, faz uma pausa e rói qualquer coisa. Este ciclo instintivo de resposta molda rios desde muito antes de pensarmos em canalizá-los com escavadoras e betão. Enquanto os humanos perseguem metas de controlo de cheias e prazos, os castores limitam-se a reagir ao som e ao caudal, ajustando a estrutura dia após dia.

Do ponto de vista técnico, cada barragem é uma pequena experiência.

Equipas de conservação em locais como Devon, em Inglaterra, ou a Flandres, na Bélgica, começaram a trabalhar com este “método”, em vez de o combater. Escolhem locais de libertação com árvores suficientes, ribeiros de fraco declive e alguma aceitação por parte dos vizinhos. Instalam dispositivos de controlo do caudal - tubos simples que atravessam ou contornam as barragens - onde a água pode acumular-se em excesso e ameaçar estradas ou culturas. Depois afastam-se e deixam os animais afinar o sistema. Grande parte da teoria da “renaturalização” perde abstração quando se observa um castor a corrigir uma fuga às 3 da manhã, durante um turno de monitorização em que se treme de frio.

Os conflitos e os receios são reais. Os agricultores preocupam-se com campos inundados, aquedutos obstruídos e árvores de pomares roídas. Os pescadores queixam-se de que as barragens podem impedir a passagem dos peixes. Quem vive junto a valas bem cuidadas recua perante a ideia de um caos retorcido e encharcado no fundo do jardim. Num outono chuvoso no oeste de França, uma aldeia atribuiu a subida da água “àqueles castores importados”, embora os gráficos de precipitação apontassem para outra explicação. Todos já tivemos aquele momento em que algo novo entra na nossa rotina e o primeiro impulso é afastá-lo.

O que mudou nos últimos cinco anos foi a abertura com que as equipas dos projetos abordam estas fricções. Muitas incluem agora conversas antecipadas, regimes de compensação e propostas muito práticas: proteções para árvores de pomares, equipas de resposta rápida para baixar barragens junto de habitações e visitas abertas, para que os vizinhos possam ver o que está realmente a acontecer. Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias. A maioria das pessoas anda ocupada; encontra a “natureza” entre dois e-mails ou na ida para buscar os filhos à escola. Se o primeiro contacto com castores for um caminho inundado ou um poste de vedação roído, a narrativa deteriora-se depressa.

Essas narrativas estão a mudar lentamente. Num vale do centro de Espanha, um agricultor que inicialmente exigiu a remoção “daqueles malditos animais” agora indica discretamente a nova zona alimentada por nascentes onde o seu gado bebe durante agosto. Na Noruega, a monitorização demonstrou que os salmões conseguem, de facto, ultrapassar muitas barragens de castores, passando por canais laterais ou durante caudais mais elevados. Quando as barragens bloqueiam realmente rotas migratórias essenciais, podem ser modificadas à mão em poucos minutos. O quadro é menos maniqueísta do que as manchetes fazem crer.

“Os castores fazem gratuitamente o trabalho pesado”, afirma um especialista em restauro fluvial na República Checa. “Nós limitamo-nos a negociar com os vizinhos.”

“Passámos décadas a pagar a engenheiros para endireitarem rios e afastarem a água o mais depressa possível”, afirma a ecóloga neerlandesa Marijke van der Veen. “Agora as alterações climáticas chegam e, de repente, o sistema lento, desorganizado e permeável que os castores constroem parece resiliência. Não estão a recuperar o passado. Estão a criar protótipos do tipo de paisagens futuras em que talvez consigamos sobreviver.”

Para as comunidades, as conclusões práticas são surpreendentemente simples:

  • Iniciar conversas com os proprietários de terrenos antes de qualquer libertação.
  • Combinar projetos com castores com instrumentos simples: dispositivos de controlo do caudal, proteções para árvores e pequenas zonas-tampão.
  • Recorrer a guias locais e a visitas abertas para que as pessoas vejam as barragens, em vez de apenas lerem sobre elas.
  • Acompanhar tanto os benefícios - armazenamento de água e biodiversidade - como os problemas - caminhos inundados - com dados básicos e transparentes.
  • Tratar os castores como parceiros na gestão da água, e não como mascotes ou pragas.

O que acontece quando 2 300 castores passam a ser 20 000?

Ninguém espera seriamente que o número se mantenha nos 2 300. Os castores reproduzem-se. As crias exploram. Os territórios expandem-se. Em zonas da Baviera e da Polónia, essa expansão já é visível em imagens de satélite: linhas azuis finas de ribeiros engrossam e tornam-se cadeias pontilhadas de lagoas e zonas húmidas. Durante verões quentes, estas bolsas destacam-se como marcas frescas e húmidas em campos cinzentos e ressequidos. Para os gestores da água que observam gráficos de seca e cheias repentinas, essas marcas começam a parecer um plano.

Há um ponto de viragem social escondido dentro do ecológico.

À medida que os castores se espalham, a política local deixa de perguntar “Devemos tê-los?” e passa a perguntar “Onde os queremos mais?” e “Onde representam um problema real?”. É uma conversa muito diferente. Obriga as regiões a pensar em mapas e bacias hidrográficas, não apenas em queixas individuais. Algumas zonas urbanas propensas a cheias poderão tornar-se corredores deliberadamente livres de castores. A montante, bacias inteiras de cabeceira poderão ser deixadas ao estado selvagem, com castores tão numerosos como mosquitos, a transformar enxurradas rápidas em caudais lentos e infiltrantes. Entre estes extremos haverá negociações difíceis, projetos-piloto irregulares e um ou outro processo judicial.

Não será um processo arrumado. Raramente o é quando os animais assumem tarefas para as quais antes contratávamos empreiteiros.

A nível humano, o regresso dos castores toca em algo mais profundo do que os relatórios sobre gestão da água. As pessoas ficam junto às margens de novas lagoas com os filhos, veem uma cauda achatada ondular a superfície e algo na sua ideia de “normal” desloca-se alguns centímetros. Pequenas localidades que viram as suas zonas húmidas desaparecer acolhem agora passeios de fim de semana promovidos como “Safaris de Castores”. Jovens biólogos que cresceram sem grandes mamíferos locais passam a seguir, ao amanhecer, rastos pesados por entre caniçais. Um agricultor pode queixar-se de um canto de campo inundado e, na mesma frase, admitir que o canto dos pássaros às 5 da manhã duplicou.

Nada disto elimina as partes incómodas. As chamadas sobre aquedutos bloqueados continuarão a chegar. Alguns projetos falharão. Alguns castores voltarão a ser deslocados ou, em casos extremos, mortos. A história romântica de um “animal que regressou” chocará com a realidade banal de estradas, valas e prazos. Ainda assim, algures entre as folhas de cálculo e os sons de roer na escuridão, uma pergunta subtil continua a surgir.

Até que ponto estamos realmente dispostos a partilhar o controlo com outra espécie, se essa espécie começar discretamente a tornar o nosso mundo mais habitável?

Ponto-chave Pormenor Interesse para o leitor
Os castores transformam a água As barragens abrandam os rios, espalham a água lateralmente e recarregam os lençóis freáticos Ajuda a compreender porque estes animais são importantes para cheias, secas e clima
Renaturalização na prática Mais de 2 300 castores foram reintroduzidos em projetos geridos por toda a Europa Mostra que uma transformação ecológica em grande escala já está a acontecer, e não é apenas teoria
Viver com o conflito Instrumentos como dispositivos de controlo do caudal, proteções para árvores e diálogo local reduzem os problemas Apresenta ideias concretas para comunidades perante populações novas ou regressadas de castores

Neste momento

Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

Perguntas frequentes

Os castores reintroduzidos pertencem à mesma espécie que viveu outrora na Europa?

Os projetos centram-se no castor-europeu (Castor fiber), espécie nativa da Europa e de partes da Ásia. Muitas populações foram reduzidas a pequenos grupos residuais pela caça, pelo que as libertações atuais recorrem a animais dessas linhagens sobreviventes, e não a castores norte-americanos.

As barragens de castores bloqueiam sempre peixes como salmões e trutas?

Estudos realizados em vários países revelam que muitas espécies de peixes conseguem contornar ou atravessar barragens de castores, sobretudo quando os caudais são mais elevados. Quando uma barragem específica bloqueia claramente uma rota migratória crucial, muitas vezes é possível abrir-lhe uma passagem ou remover-lhe parcialmente uma secção à mão.

Os castores vão inundar o meu terreno ou jardim?

Podem elevar os níveis de água locais, especialmente em pequenos cursos de água. Em locais sensíveis, medidas simples como tubos de controlo do caudal através das barragens, pequenos diques ou a deslocação das barragens por uma curta distância podem reduzir consideravelmente inundações indesejadas.

Quem paga a gestão dos conflitos com castores?

Varia consoante o país. Algumas regiões disponibilizam financiamento público, regimes semelhantes a seguros ou apoio de grupos de conservação para cobrir medidas como proteções para árvores, gestão de barragens ou, em casos raros, compensação por perdas de culturas.

As comunidades locais podem participar em projetos com castores?

Sim. Muitos projetos dependem de voluntários para monitorização, colocação de câmaras automáticas, mapeamento de barragens e diálogo com proprietários de terrenos. Passeios guiados, sessões escolares e levantamentos de ciência cidadã são formas de participação cada vez mais comuns.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário