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Índia e Embraer desafiam Airbus e Boeing com jatos regionais

Dois homens apertam as mãos junto a modelos de avião e bandeiras da Índia e Brasil num hangar aeroportuário.
Neste artigo
  1. Conglomerado indiano alia-se à Embraer
  2. Porque é que a Embraer aposta na Índia
  3. Adani quer fazer mais do que montar aviões
  4. O transporte aéreo da Índia cresce rapidamente
  5. A China avança em paralelo com o C919
  6. Está o duopólio Airbus-Boeing a enfraquecer?
  7. O que isto significa para passageiros e companhias aéreas
  8. Desafios e riscos do sonho aeronáutico indiano
  9. Porque é que os jatos regionais voltaram ao centro das atenções

A Índia prepara-se para entrar na liga dos fabricantes de aviões, através de uma aliança capaz de alterar de forma relevante o equilíbrio de forças na aviação.

Um gigante industrial indiano e um fabricante aeronáutico brasileiro consolidado juntaram-se para produzir jatos regionais na Índia. Esta iniciativa representa muito mais do que a criação de uma fábrica: Nova Deli pretende desenvolver uma indústria aeronáutica própria, num mercado onde a pressão sobre a Airbus e a Boeing já está a aumentar.

Conglomerado indiano alia-se à Embraer

O conglomerado indiano Adani Group e a construtora aeronáutica brasileira Embraer assinaram um acordo que poderá marcar o início de uma nova fase. O plano prevê a produção conjunta de aviões regionais em território indiano.

O projeto está centrado em aeronaves com capacidade para 70 a 140 passageiros, destinadas sobretudo a rotas de curta e média distância. Este é precisamente o segmento que mais cresce no transporte aéreo, à medida que aumentam as ligações entre cidades pequenas e médias.

O novo projeto conjunto visa jatos regionais com 70 a 140 lugares, que deverão constituir a espinha dorsal do transporte aéreo doméstico indiano.

A parceria deverá abranger várias áreas:

  • Montagem final de aviões regionais na Índia
  • Fabrico de peças e componentes
  • Manutenção e reparação da frota
  • Formação de pilotos, pilotas, técnicos e técnicas

Assim, não se trata apenas de aparafusar componentes e trabalhar chapas metálicas, mas de criar todo um ecossistema dedicado aos jatos regionais modernos.

Porque é que a Embraer aposta na Índia

Para a Embraer, esta decisão tem uma lógica claramente estratégica. A empresa é considerada o terceiro maior fabricante de aviões do mundo, depois da Airbus e da Boeing. Até agora, os seus aviões comerciais são produzidos exclusivamente no Brasil, mas há algum tempo que o grupo procura reforçar a sua internacionalização.

A Índia reúne várias vantagens: o mercado está em expansão, o Governo apoia fortemente os projetos industriais e a aviação local necessita precisamente dos aviões oferecidos pela Embraer. Os parceiros brasileiros e indianos já têm uma cooperação mais próxima no setor militar, nomeadamente em torno do avião de transporte C-390. Agora, essa relação estende-se à aviação civil.

A Embraer espera obter acesso direto às companhias aéreas indianas, que terão de definir claramente como vão ampliar as suas frotas nos próximos anos. A produção local pode oferecer vantagens em custos, prazos de entrega e apoio político.

Adani quer fazer mais do que montar aviões

Para o Adani Group, o acordo poderá ser ainda mais importante. O conglomerado já opera em numerosos setores, incluindo aeroportos, defesa, espaço, energia e infraestruturas. A entrada no fabrico de aviões de passageiros acrescenta agora mais um setor estratégico de futuro.

A Adani pretende construir uma cadeia de valor aeronáutica completa, e não apenas uma unidade de montagem.

O objetivo vai muito além de uma simples fábrica de montagem. O grupo pretende:

  • Desenvolver uma indústria local de fornecedores capaz de disponibilizar componentes e sistemas
  • Criar uma cadeia de abastecimento sólida dentro do país
  • Tornar a Índia menos dependente de importações da Europa, dos Estados Unidos e da China
  • Gerar empregos qualificados nas áreas técnicas e de engenharia

Desta forma, o projeto encaixa plenamente na estratégia governamental «Make in India», em Nova Deli, que dá prioridade à criação de indústrias nacionais - desde smartphones a satélites e, agora, também aviões comerciais.

O transporte aéreo da Índia cresce rapidamente

O momento escolhido para este projeto não é acidental. O tráfego aéreo indiano está a crescer a um ritmo muito acelerado. O país tem atualmente a maior população do mundo, uma classe média em expansão e uma extensa rede de companhias aéreas de baixo custo.

Os números de passageiros aumentam de forma significativa sobretudo nas rotas domésticas. Muitas pessoas estão a trocar o comboio ou os autocarros de longa distância pelo avião, à medida que os preços descem e surgem novas ligações. Voos entre cidades médias, antes raramente ligados de forma direta, estão a tornar-se economicamente viáveis.

O crescimento da classe média, o aumento das companhias low-cost e os novos aeroportos estão a elevar a procura por jatos regionais e de média distância.

Há sobretudo dois tipos de aviões em procura:

Segmento Utilização típica Capacidade
Jatos regionais Ligações entre cidades pequenas e médias 70–140 lugares
Jatos estreitos de média distância Eixos principais e rotas domésticas muito movimentadas cerca de 150–240 lugares

A Índia pretende não apenas encomendar aviões neste mercado em expansão, mas também fabricá-los internamente. Alguns estados, como Gujarat e Andhra Pradesh, já estão a candidatar-se a receber fábricas, centros de formação e parques de fornecedores.

A China avança em paralelo com o C919

Enquanto a Índia se prepara para fabricar jatos regionais com a Embraer, a China segue uma estratégia diferente. O país tem no C919, da Comac, um avião próprio de curta e média distância que deverá concorrer diretamente com os modelos de maior sucesso Airbus A320 e Boeing 737.

O C919 encontra-se numa etapa decisiva: a certificação europeia. Em Xangai, decorrem voos de teste sob supervisão da Agência Europeia para a Segurança da Aviação. Especialistas apontam para um prazo entre três e seis anos até que todos os requisitos sejam cumpridos.

Com o C919 chinês e o novo projeto aeronáutico indiano, o até agora duopólio da Airbus e da Boeing ganha concorrência clara.

A longo prazo, as companhias aéreas de todo o mundo poderão beneficiar de mais opções e de maior capacidade de negociação. Para a Airbus e a Boeing, por outro lado, aumenta a pressão para modernizarem os seus programas, resolverem problemas de entrega e manterem os níveis de preços.

Está o duopólio Airbus-Boeing a enfraquecer?

Há décadas que a Airbus e a Boeing dividem entre si a maior parte do mercado de aviões comerciais. Tradicionalmente, os novos concorrentes enfrentam grandes dificuldades, porque os processos de certificação são demorados, os requisitos de segurança são exigentes e as companhias aéreas relutam em operar frotas pouco comuns.

Com a Embraer, já bem estabelecida no mercado de jatos regionais, e com um forte parceiro indiano, está agora a surgir um interveniente relevante. Ao mesmo tempo, a China trabalha, com pleno apoio estatal, para posicionar internacionalmente o C919.

O panorama geral é o seguinte:

  • A Índia reforça a sua presença no segmento dos jatos regionais, apoiada pela Embraer.
  • A China aponta o C919 ao segmento central do Airbus A320 e do Boeing 737.
  • A Airbus e a Boeing têm de lidar com desafios técnicos, financeiros e políticos.

A indústria aeronáutica entra, assim, numa fase em que as quotas de mercado poderão mudar mais do que nas últimas décadas.

O que isto significa para passageiros e companhias aéreas

Para os passageiros na Índia, o impacto poderá tornar-se percetível relativamente depressa: mais ligações diretas entre cidades que até agora exigiam escalas e uma maior frequência de voos dentro do país. Os jatos regionais são particularmente adequados para lançar novas rotas com taxas de ocupação inicialmente mais baixas.

A médio prazo, as companhias aéreas terão a possibilidade de diversificar mais as suas frotas. Quando outros fornecedores passam a competir seriamente com a Airbus e a Boeing, a posição negocial das transportadoras em matéria de preços e prazos de entrega tende também a melhorar. Contudo, a gestão das frotas torna-se mais complexa, pois diferentes modelos exigem manutenção, peças sobresselentes e formação distintos.

Desafios e riscos do sonho aeronáutico indiano

Apesar da ambição do projeto, o percurso está longe de ser simples. A indústria aeronáutica exige elevados investimentos de capital, grande capacidade tecnológica e forte regulação. A Índia terá de formar um elevado número de profissionais qualificados, manter os padrões de forma permanente e conquistar a confiança das autoridades internacionais.

Existem também riscos políticos. Alterações nas condições de enquadramento, tensões comerciais ou restrições à exportação de determinadas tecnologias podem atrasar um projeto deste tipo. A realização simultânea de outros grandes programas, por exemplo nos setores da defesa e do espaço, também consome recursos.

Ao mesmo tempo, abre-se para a Índia uma oportunidade que vai além da aviação. Quem produz aviões complexos desenvolve competências em áreas como tecnologia de materiais, software, sistemas de propulsão e robótica de produção. Estas capacidades também podem ser utilizadas noutros setores, como máquinas de alta tecnologia, tecnologias energéticas ou sistemas espaciais.

Porque é que os jatos regionais voltaram ao centro das atenções

Durante muito tempo, os jatos regionais foram considerados um produto de nicho entre os aviões turbo-hélice e os jatos clássicos de média distância. Com a crescente procura por ligações ponto a ponto, estão agora a ganhar importância. As companhias aéreas podem testar novas rotas com aviões mais pequenos, sem terem de encher de imediato uma aeronave de grande porte.

Este conceito adequa-se especialmente a um país como a Índia, com muitas cidades de milhões de habitantes, mas também centros urbanos médios em rápido crescimento. Quem criar hoje uma ligação direta entre duas regiões até agora mal servidas poderá assegurar quotas de mercado duradouras - e é precisamente nesse ponto que a Adani e a Embraer assentam o seu projeto.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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