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Fernando de Noronha: de prisão a paraíso natural

Homem com mochila passa por portão em fortaleza antiga com canhões, vista para praia e montanhas verdes.
Neste artigo
  1. Quantas ilhas compõem Fernando de Noronha?
  2. Porque transformou Portugal as ilhas num ponto militar e numa prisão?
  3. Como era viver num paraíso convertido em local de confinamento?
  4. Que vestígios desse passado subsistem na ilha?
  5. Do isolamento imposto a um dos destinos mais desejados do Brasil

Fernando de Noronha é actualmente ligado a praias de águas límpidas, mergulho e conservação marinha. No entanto, a ocupação portuguesa consolidada do arquipélago teve uma finalidade muito distinta: em 1737, foi fortificado e passou a acolher uma colónia correcional, dando início a uma ligação ao sistema prisional que se prolongaria por várias fases da história do Brasil.

Quantas ilhas compõem Fernando de Noronha?

O arquipélago de Pernambuco é formado por 21 ilhas, ilhéus e rochedos e abrange uma área total aproximada de 26 km². A ilha principal concentra os habitantes permanentes, as estradas, o aeroporto e grande parte das praias procuradas por visitantes.

A paisagem, de origem maioritariamente vulcânica, inclui ainda duas áreas protegidas, entre as quais o Parque Nacional Marinho. A união entre formações rochosas, praias e biodiversidade explica por que razão o destino actual parece tão afastado da função estratégica que lhe foi atribuída no século XVIII.

Porque transformou Portugal as ilhas num ponto militar e numa prisão?

Após repetidas disputas estrangeiras pelo arquipélago, Portugal restabeleceu a ocupação em 1737, através da Capitania de Pernambuco. A localização isolada no Atlântico era vantajosa tanto para a defesa naval como para manter afastadas do continente as pessoas enviadas para o local.

  • Uma rede de fortificações começou a defender os possíveis locais de desembarque;
  • Uma colónia correcional recebeu presos comuns enviados de Pernambuco;
  • O isolamento geográfico tornava mais difíceis as fugas e o contacto com o continente;
  • Em diferentes períodos, a ilha também recebeu presos políticos;
  • Povoações e estruturas administrativas desenvolveram-se em redor da ocupação militar e penal.

Veja de seguida o vídeo do canal Wout of the World sobre o arquipélago de Fernando de Noronha:

Como era viver num paraíso convertido em local de confinamento?

As praias que hoje atraem visitantes funcionavam como fronteiras naturais para quem estava impedido de abandonar a ilha. A distância em relação ao continente, as correntes marítimas e a presença militar acentuavam o isolamento, enquanto os presos participavam em tarefas e trabalhos necessários ao funcionamento do próprio território.

A utilização penal prolongou-se pelo século XIX e chegou ao século XX. Em 1938, Fernando de Noronha foi entregue à União para a criação de uma prisão política; quatro anos mais tarde, já durante a Segunda Guerra Mundial, passou a território federal e voltou a assumir uma forte importância estratégica militar.

Que vestígios desse passado subsistem na ilha?

O património histórico conserva edifícios que revelam uma Noronha muito diferente da que surge nas fotografias de viagem. Fortes, antigos núcleos urbanos e construções erguidas ao longo de séculos de ocupação mostram de que forma a defesa militar e o confinamento marcaram o território.

  • A Vila dos Remédios reúne uma parte significativa das construções históricas;
  • Foram construídas fortificações para vigiar possíveis desembarques;
  • A construção da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios teve início em 1737;
  • As estruturas militares acompanharam as várias etapas da ocupação;
  • A população actual mantém também ligações a famílias formadas durante esses períodos históricos.

Do isolamento imposto a um dos destinos mais desejados do Brasil

A mudança vivida por Fernando de Noronha ao longo dos séculos estabelece um contraste difícil de conceber perante as actuais águas azuis. O mesmo afastamento geográfico que serviu objectivos militares e penitenciários acabaria por se tornar um elemento decisivo para a protecção das paisagens e dos ecossistemas marinhos.

Conhecer esta história altera a forma de olhar para as 21 ilhas. Por detrás das praias e das escarpas vulcânicas encontra-se um passado de fortificações, presos comuns, perseguidos políticos e presença militar, até que o arquipélago deixou de ser recordado sobretudo como um lugar de confinamento e passou a integrar o imaginário brasileiro como um dos seus maiores patrimónios naturais.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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