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Poço etrusco em Kainua revela dois esqueletos e oferendas de bronze

Homem a examinar tumba arqueológica circular com esqueletos e estátuas em sítio escavado, paisagem montanhosa ao fundo.
Neste artigo
  1. O que foi encontrado no fundo do poço etrusco?
  2. Porque era a água tão relevante naquele local?
  3. Que deuses eram venerados junto ao poço?
  4. Porque estavam dois esqueletos no interior da estrutura?
  5. O que pode este poço revelar sobre Kainua?

Dois esqueletos humanos, duas pequenas figuras femininas em bronze e uma invulgar placa metálica ficaram ocultos durante cerca de 2.500 anos no fundo de um poço em Itália. O achado foi feito em Kainua, uma antiga cidade etrusca perto de Marzabotto, onde uma estrutura aparentemente destinada à captação de água terá também acolhido cerimónias religiosas.

O que foi encontrado no fundo do poço etrusco?

O poço surgiu durante a 39.ª campanha de escavações da Universidade de Bolonha, dirigida pela arqueóloga Elisabetta Govi. No seu fundo, os investigadores recuperaram duas estatuetas femininas e um objecto extremamente raro com a forma de um prato, todos produzidos em bronze. De acordo com Govi, as peças conservavam ainda parte do brilho original do metal.

Os arqueólogos situam estas oferendas entre o final do século VI e as primeiras décadas do século V a.C., uma cronologia que coincide com a fundação da cidade. A hipótese avançada é a de que os objectos terão sido colocados no local num rito solene de fundação do poço, confirmando que a construção tinha uma função muito mais ampla do que o simples fornecimento de água.

Porque era a água tão relevante naquele local?

A estrutura encontrava-se numa importante zona sagrada da cidade. Na perspectiva dos investigadores, tanto a sua localização como os materiais ali depositados indicam que a água detinha igualmente um significado religioso. O achado contribui para perceber de que modo recursos indispensáveis à sobrevivência podiam adquirir valor simbólico durante a fundação e a organização de uma cidade etrusca.

  • Duas estatuetas femininas de bronze foram colocadas no fundo como oferendas.
  • O conjunto ritual identificado pelos arqueólogos incluía também um raro prato de bronze.
  • Dois adultos foram depositados mais tarde na estrutura, no contexto do seu encerramento ritual.
  • O poço foi construído aproximadamente no período em que Kainua estava a ser fundada.

Existe ainda um pormenor particularmente curioso: Kainua significa aproximadamente “cidade nova”, e fontes locais referem que a sua fundação foi acompanhada por complexos rituais religiosos. A cidade possuía ruas ordenadas, bairros residenciais, oficinas, necrópoles e espaços sagrados, sendo actualmente um exemplo valioso para o estudo do planeamento urbano etrusco.

Que deuses eram venerados junto ao poço?

Na mesma zona foram descobertos grandes templos associados, através de inscrições etruscas, a Tinia e Uni, um casal divino central no panteão etrusco. Tinia é frequentemente equiparado a Zeus e Júpiter, enquanto Uni corresponde a Hera e Juno nas tradições grega e romana.

Há também indícios do culto de Vei, uma divindade ligada à fertilidade humana e agrícola, relacionada com Deméter e Ceres. Segundo Elisabetta Govi, é neste enquadramento religioso que o novo poço deve ser compreendido, fornecendo elementos adicionais sobre os ritos de fundação das cidades etruscas.

Porque estavam dois esqueletos no interior da estrutura?

Os dois esqueletos são de adultos e, segundo a Universidade de Bolonha e o Ministério da Cultura de Itália, parecem estar ligados a um ritual que assinalou o fim da utilização do poço. Assim, os restos humanos terão sido ali depositados numa fase distinta da das oferendas colocadas durante a fundação.

Contudo, a descoberta não permite concluir que tenha existido um sacrifício humano. Será necessário estudar os restos para tentar determinar quando estas pessoas morreram e em que circunstâncias foram ali colocadas. Distinguir claramente entre a evidência arqueológica e a sua interpretação é particularmente importante em descobertas invulgares desta natureza.

O que pode este poço revelar sobre Kainua?

Kainua foi fundada no final do século VI a.C. e abandonada durante o século IV a.C., numa época marcada por migrações e pela presença celta na região. Como as suas ruínas não foram cobertas por uma grande cidade moderna, a antiga malha urbana manteve-se excepcionalmente legível, permitindo reconstituir ruas, habitações, oficinas, templos e necrópoles.

Agora, um poço aparentemente comum acrescenta uma nova peça a este puzzle. Os objectos serão analisados e conservados antes de poderem integrar o renovado MNEMA, Museu Nacional Etrusco de Marzabotto. Acompanhar estas análises poderá revelar novos indícios sobre a forma como os etruscos relacionavam a água, a religião e o nascimento das cidades, convertendo uma estrutura quotidiana num testemunho extraordinário das suas crenças.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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