Partidos de Andorra para percorrer as Américas, Martin e Maria trocaram as contas fixas por uma vida organizada ao ritmo de cada etapa.
Deixaram os empregos nos meios de comunicação, enviaram a carrinha para a Argentina e fizeram-se à estrada sem olhar muito para trás. Catorze anos depois, Martin e Maria já percorreram mais de 200 000 quilómetros e vivem hoje com despesas muito abaixo das que tinham anteriormente. O veículo passou a ser, ao mesmo tempo, casa, meio de transporte e instrumento de trabalho.
Uma casa sobre rodas em vez de um apartamento
Antes da partida, o casal trabalhava em televisão e imprensa, em Andorra. Na altura, o seu modo de vida custava-lhes mais de 2 000 euros por mês. Habitação, encargos, alimentação e despesas correntes formavam um orçamento semelhante ao de muitos agregados familiares estabelecidos numa cidade europeia.
A mudança começou com a ideia de fazer uma viagem de longa duração. Martin e Maria mandaram transportar a carrinha para a Argentina e iniciaram depois a subida pelo continente americano. O percurso levou-os de Ushuaia, no extremo sul do continente, até ao Alasca. Foi uma travessia imensa, feita por fases e intercalada com períodos de trabalho.
O casal calcula que reduziu as despesas quotidianas para menos de metade desde que começou a viver na estrada.
Na América Latina, afirmam gastar entre 300 e 400 euros mensais por pessoa. Este valor inclui, entre outros custos, alimentação, combustível, manutenção do veículo e encargos do dia a dia. Pode aumentar quando surge uma avaria mecânica ou uma deslocação dispendiosa, mas este estilo de vida elimina várias despesas que, habitualmente, são inevitáveis.
Sem renda, mas com limitações constantes
A diferença mais evidente está nos custos fixos. Martin e Maria não pagam renda, não têm um empréstimo à habitação para amortizar nem recebem contas mensais de água ou eletricidade. Isso não quer dizer que disponham destes recursos sem limites. Pelo contrário, a autonomia depende de uma organização rigorosa.
A carrinha tem um depósito com 40 litros de água. De acordo com o casal, esta reserva chega para cerca de uma semana. Por isso, cada utilização deve ser controlada: lavar a loiça, higiene pessoal, cozinhar e limpar o veículo. Um duche demorado ou uma lavagem de roupa improvisada pode comprometer o planeamento dos dias seguintes.
- Reduzem a água usada na higiene e na lavagem da loiça.
- Procuram com regularidade locais autorizados para reabastecer água.
- Produzem parte da eletricidade através de painéis solares.
- Restringem o uso de aparelhos com elevado consumo para proteger as baterias.
- Escolhem o local de estacionamento em função do tempo e da exposição solar.
Os painéis solares convertem a luz em eletricidade, que é armazenada nas baterias instaladas no veículo. O sistema permite alimentar pequenos equipamentos quotidianos, como iluminação, carregamento de telemóveis ou equipamento informático. A sua eficiência varia consoante o sol, o estado das baterias e o consumo efetivo. Vários dias de chuva podem levar os viajantes a reduzir utilizações ou a procurar uma forma de recarregar.
Trabalhar para continuar na estrada
Para este casal, uma vida móvel nunca significou deixar de trabalhar. Martin e Maria desempenharam várias profissões, consoante os países e as oportunidades que encontravam. Foram músicos, artesãos e criadores de conteúdos para empresas. Atualmente, os vídeos que publicam numa plataforma online também integram as suas fontes de rendimento.
Esta diversidade parece-lhes essencial. Uma competência capaz de gerar rendimento numa região pode deixar de ser suficiente alguns milhares de quilómetros mais adiante. As regras administrativas mudam, tal como as necessidades locais e o custo de vida. Assim, o seu equilíbrio depende menos de um emprego fixo e mais da capacidade de se adaptarem.
Para continuarem a viajar, tiveram de aprender a transformar as suas atividades com a mesma frequência com que mudavam os itinerários.
Esta liberdade tem uma contrapartida clara: os rendimentos podem ser irregulares. É necessário prever períodos sem trabalho, despesas de combustível, seguros e reparações. Uma carrinha envelhecida também pode tornar-se uma preocupação. O veículo não serve apenas para se deslocarem: quando avaria, toda a casa fica parada.
Os imprevistos podem sair caros
O casal não descreve a sua vida como uma sucessão de paisagens perfeitas. Entre as dificuldades que enfrentaram, o transporte marítimo do veículo permanece uma má recordação. Depois de uma experiência marcada por complicações e custos inesperados, desaconselham o envio num contentor para este tipo de transporte.
As avarias mecânicas continuam a representar o maior risco financeiro. Quando surge um problema grave, o orçamento mensal pode chegar aos 1 000 euros. Nesses momentos, a poupança obtida na habitação desaparece depressa. Uma reparação urgente, peças difíceis de encontrar ou várias noites num alojamento convencional podem aumentar bastante a despesa.
Uma liberdade que exige preparação prática
Viver num veículo não se resume a partir com alguns pertences e um mapa de estrada. Gerir água, energia, resíduos, estacionamento e segurança passa a fazer parte da rotina diária. Os viajantes têm ainda de respeitar as normas locais, pois pernoitar num veículo é regulado ou proibido em determinadas zonas.
Ter autonomia para vários dias exige, em geral, um depósito limpo, baterias em bom estado e controlo do consumo elétrico. O nível da água deve ser verificado com frequência para evitar circular com uma reserva demasiado baixa. Nas zonas quentes, a necessidade de água aumenta rapidamente. Nas regiões frias, o aquecimento e a proteção contra a humidade tornam-se questões centrais.
Após mais de dez anos nas estradas das Américas, Martin e Maria prosseguem o percurso na Austrália. O seu quotidiano continua a ser frugal, por vezes desconfortável e sujeito a imprevistos. Ainda assim, encontram nele o que procuravam inicialmente: mais tempo, uma paisagem que muda com frequência e a possibilidade de escolherem, eles próprios, a próxima etapa.






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