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A Pedra do Altar de Stonehenge veio do nordeste da Escócia

Mulher examina ferramenta arqueológica numa mesa com mapa em Stonehenge ao pôr do sol.
Neste artigo
  1. As pedras de Stonehenge e a origem da Pedra do Altar
  2. Uma técnica inovadora para analisar a Pedra do Altar
  3. A origem escocesa da Pedra do Altar

Ninguém sabe ao certo porque foi construído Stonehenge. Acredita-se que este monumento mundialmente famoso, situado na planície de Salisbury, em Wiltshire, tenha sido erguido para assinalar os mortos e esteja alinhado com os movimentos do Sol e da Lua.

É composto por um anel exterior e uma ferradura interior de grandes pedras «sarsen» e «trilithon», bem como por um círculo e uma ferradura interiores formados por «bluestones» mais pequenas. A sua construção decorreu em várias fases, entre há 5.000 e 4.200 anos.

A Pedra do Altar é uma das rochas mais enigmáticas de Stonehenge e costuma ser incluída no grupo das bluestones. Apesar da designação - proposta pelo arquitecto Inigo Jones em 1620, devido à sua presumível utilização -, desconhece-se a sua função.

Colocada horizontalmente no centro de Stonehenge, a Pedra do Altar é um bloco rectangular de arenito cinzento-esverdeado, com seis toneladas e cinco metros de comprimento. É muito maior do que as restantes bluestones e tem uma composição diferente. De onde terá vindo?

Num novo artigo publicado na Nature, rastreámos a origem da Pedra do Altar até ao nordeste da Escócia, o que significa que percorreu pelo menos 700 km até à planície de Salisbury.

Trata-se de uma distância extraordinária no Neolítico, antes de se considerar que a roda tivesse chegado à Grã-Bretanha. Esta descoberta notável revela novas pistas sobre as capacidades e as ligações de longa distância dos habitantes neolíticos da Grã-Bretanha.

As pedras de Stonehenge e a origem da Pedra do Altar

Vejamos o que se sabe e como foi identificada a região de origem da Pedra do Altar. As grandes pedras de Stonehenge, os sarsens, vieram de algumas dezenas de quilómetros de distância; ainda assim, deslocar estes gigantes de 30 toneladas não era uma tarefa simples no Neolítico.

As bluestones menores e exóticas contam uma história diferente. Não são originárias da zona de Stonehenge, pesam habitualmente entre 1 e 3 toneladas e podem atingir 2,5 metros de altura. Também não sendo local, a Pedra do Altar tem o dobro da dimensão da maior das restantes bluestones. Não se sabe quando chegou a Stonehenge nem se alguma vez esteve colocada na vertical.

Só em 1923 o geólogo H. H. Thomas identificou que a maioria das bluestones ígneas provinha de Mynydd Preseli, em Pembrokeshire, no sudoeste do País de Gales. O nosso trabalho em curso afinou essa identificação, localizando as origens destas bluestones ígneas em afloramentos específicos das encostas setentrionais das colinas de Preseli.

Thomas propôs igualmente que a Pedra do Altar teria sido, provavelmente, extraída de rochas de arenito vermelho antigo situadas a sul e a leste de Mynydd Preseli, ao longo da suposta rota de transporte das bluestones até Stonehenge. A hipótese foi aceite e permaneceu sem contestação durante 80 anos.

No início dos anos 2000, voltámos a analisar os alegados fragmentos da Pedra do Altar existentes em colecções de museus. Alguns estavam claramente identificados de forma incorrecta, pelo que se iniciou o demorado processo de esclarecer a situação.

Inicialmente, passou a ser proposta uma origem no oeste do País de Gales, perto de Milford Haven. Contudo, no final da década de 2010, submetemos os fragmentos a vários outros tipos de análises geológicas. Os resultados apontavam para o leste do País de Gales ou para a fronteira galesa como origem e excluíam a hipótese do oeste galês.

Mas, sem recolher directamente uma amostra da Pedra do Altar, como poderíamos confirmar que os fragmentos de museu eram autênticos? Actualmente, não é permitido retirar pedaços de Stonehenge, como acontecia no passado.

Uma técnica inovadora para analisar a Pedra do Altar

No início da década de 2020, começámos a aplicar fluorescência de raios X portátil - um método de análise química não destrutivo - às bluestones de Stonehenge, sobretudo aos numerosos fragmentos alegadamente pertencentes à Pedra do Altar e recolhidos em antigas escavações arqueológicas. Depois, comparámos esses resultados com análises de fluorescência de raios X efectuadas na própria superfície da Pedra do Altar.

Os grãos de sedimento da Pedra do Altar estão unidos pelo mineral barita, que lhe confere uma composição química invulgar, rica no elemento bário.

Alguns fragmentos de museu eram idênticos à Pedra do Altar. Foi decisivo demonstrar que um fragmento identificado, retirado da Pedra do Altar em 1844, era genuíno. Estes poucos e valiosos fragmentos puderam então ser utilizados no estudo, evitando a necessidade de recolher novas amostras directamente da Pedra do Altar.

Entretanto, a equipa científica passou a incluir geólogos de Inglaterra, País de Gales, Escócia, Canadá e Itália. Tínhamos analisado diversas amostras de arenito vermelho antigo provenientes de todo o País de Gales e da fronteira galesa, procurando uma correspondência química e mineralógica com a Pedra do Altar.

Nada se revelou semelhante. No Outono de 2022, concluímos que a Pedra do Altar não podia ter origem no País de Gales e que seria necessário procurar mais longe.

Na mesma altura, um contacto casual de Tony Clarke, estudante de doutoramento da Universidade Curtin, em Perth, na Austrália Ocidental, ofereceu uma possibilidade de avançar.

Convidámos o grupo da Curtin a determinar as idades de uma série de minerais em dois fragmentos da Pedra do Altar, na esperança de obter informação sobre a sua idade e possível proveniência. Este método data os grãos minerais presentes na rocha e produz uma «impressão digital» cronológica, associando-os a uma determinada região.

A origem escocesa da Pedra do Altar

O nosso novo estudo, publicado na Nature, demonstra que a impressão cronológica da Pedra do Altar a identifica como proveniente da Bacia das Órcades, no nordeste da Escócia. As conclusões desta datação são verdadeiramente surpreendentes e derrubam uma ideia aceite durante um século.

É entusiasmante saber que o culminar de quase duas décadas de trabalho permitiu desvendar este mistério. Podemos afirmar com confiança que esta rocha icónica é escocesa, e não galesa; mais precisamente, que veio dos arenitos vermelhos antigos do nordeste da Escócia.

Partindo da Bacia das Órcades, a Pedra do Altar percorreu uma distância notável: pelo menos 700 km em linha recta. Esta é a mais longa viagem conhecida de qualquer pedra utilizada num monumento neolítico.

As nossas análises não permitem explicar como chegou a Pedra do Altar a Stonehenge. As florestas constituíam uma das várias barreiras físicas ao transporte por terra, enquanto uma viagem marítima teria sido igualmente intimidante. Da mesma forma, não conseguimos determinar porque foi transportada para aquele local.

Independentemente do que os arqueólogos venham a descobrir no futuro, os resultados terão grandes implicações para compreender as comunidades neolíticas, as suas ligações entre si e a forma como transportavam bens a grandes distâncias. Entretanto, continua a procura de uma origem ainda mais precisa para a Pedra do Altar.

Nicholas Pearce, Professor de Geoquímica, Universidade de Aberystwyth; Richard Bevins, Professor Honorário, Departamento de Geografia e Ciências da Terra, Universidade de Aberystwyth; e Rob Ixer, Investigador Sénior Honorário, Instituto de Arqueologia, UCL

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Miguel Ângelo Ferreira

Miguel Ângelo Ferreira é guia de natureza certificado e fotógrafo de paisagem, especializado no Parque Nacional da Peneda-Gerês e nos seus percursos pedestres. Dedica-se à divulgação responsável das cascatas, lagoas e trilhos do Gerês, aliando conhecimento do património natural local a práticas de turismo sustentável e seguro.

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